Coluna inspirada no filme ‘A Hora da Estrela’ – adaptação ao livro da escritora, Clarice Lispector
Carina Yano/Tv Sobrinho –
“Eu não acho que sou muita gente.”
Acho que essa foi uma das frases mais impactantes do filme ‘A Hora da Estrela’ de 1985, uma adaptação do livro da escritora brasileira, Clarice Lispector.
Assisti essa obra recentemente e fiquei muita surpresa com o que eu vi.
Uma história cheia de simplicidade, crua, real, triste, ingênua e ao mesmo tempo cômica. Não sei como conseguiram conciliar tudo isso.
É incrível como todos os diálogos possuem um peso gigantesco, mesmo sendo uma simples frase.
O enredo mostra uma garota órfã de 19 anos que trabalha em um lugar por menos de um salário mínimo como datilógrafa.
A garota se chamava Macabéa e morava num apartamento com mais três mulheres.
Macabéa era nordestina e havia se mudado para o Rio de Janeiro em busca de melhoria na própria vida.
Infelizmente, Macabéa não vivia, ela apenas sobrevivia. Não apenas no sentido financeiro, mas principalmente no sentido existencial.
Geralmente nós discutimos coisas sobre solidão, tristeza, desesperança entre outras coisas similares da vida. Quando se trata dessa história especificamente, é difícil explicar o vazio que é retratado na vida de Macabéa.
A impressão que fica é que ela não tem uma noção de EU. Existe uma ingenuidade muita grande na personagem que ultrapassa a paciência de outros que convivem com ela.
Macabéa tenta existir num mundo onde ela é menosprezada e desrespeitada. Mesmo ela ouvindo horrores sobre si mesma, ela não reage. É como se ela nunca tivesse aprendido sobre certas coisas da vida, principalmente sobre a imposição de limites.
Ela acabava sendo submissa em diversas situações, não por vontade, mas por achar normal.
Só que no fundo ela sentia o peso. Eu acredito que sim.

Sua forma mais autêntica de se conectar com o mundo, era através de um rádio. O programa se chamava ‘Rádio Relógio’. Lá, ela conseguia ter conhecimento sobre diversas curiosidades e temas.
Apesar da sua incapacidade de se reconhecer como ‘gente’, certa vez Macabéa disse:
– Ontem eu escutei uma música tão linda que eu até chorei.
As pessoas ao seu redor poderiam até enxergá-la, mas escolhiam não olhar para ela. Deu para entender?
Macabéa era julgada de diversas formas. Pelo seu trabalho, pelo seu cheiro e principalmente pela sua aparência.
Honestamente, acho que não existe coisa mais triste do que ser tão invisível como ela era.
O fato de um bicho não ter consciência dele ser o que é, ou da importância da felicidade, é totalmente compativel com o sentimento de Macabéa.
Uma “colega” de Macabéa uma vez perguntou pra ela:
– Você é feliz?
Ela respondeu:
– Felicidade serve pra quê?
Além do vazio de ser invisível, também é triste a condição de não se reconhecer como individuo.
Depois que eu assisti esse filme fiquei com vontade de ler o livro. E após umas pesquisas, percebi uma coisa muito forte sobre a obra.
Quantas realidades deste nível não deve existir por ai? Quantas Macabéas deixamos de dar atenção? Qual a quantidade de pessoas invisíveis que existem na vida?
Por incrível que pareça, geralmente, essas pessoas são muito interessantes.
Assim como Macabéa era no filme. Apesar de toda a sua dificuldade e escassez de repertório cultural e de comportamento, o seu jeito de ser era singular e questionador.
Ela acreditava e sonhava com o seu momento de glória.
Não irei dar mais detalhes sobre a história, se não estrago a sua experiência com os spoilers.
Mesmo com toda essa carga pesada que é a história de Macabéa, ainda terá cenas para te tirar um pequeno riso.
Como está cena abaixo:

*Yano Terapias apoia o trabalho desta colunista.
Carina Yano tem 30 anos e é formada em fotografia com três fotos publicadas na Vogue Itália. Trabalhou durante 7 anos como jornalista. No momento trabalha como massoterapeuta, colunista da Tv Sobrinho e Youtuber. Seu amor pela escrita é um romance antigo. Desde a sua adolescência escrevia, mas só agora teve a oportunidade de expor em público suas reflexões.
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