Você já é um produto faz tempo. Um texto recheado de críticas que não necessariamente reflete a opinião genuína do autor
Carina Yano/Tv Sobrinho –
Quero começar essa reflexão com uma das coisas que chocou a internet nos últimos dias que foi a questão do ator Jim Carrey não parecer o Jim Carrey.
Depois da sua última aparição em uma premiação em Paris no dia 26 de fevereiro, surgiram inúmeras teorias da conspiração sobre ter sido um clone do Jim Carrey ou um sósia que estava presente no evento.
Sua aparência estava diferente. Parecia que ele havia efeito alguns procedimentos estéticos, apesar de parecer mais inchado. Seu comportamento também estava diferente e incomum (confesso que eu também achei estranho).
Normalmente ele era o cara que vinha com discursos cheios de críticas e um humor até ácido, além da energia que contagiava todos ao redor e quem o assistia.
As teorias ferveram, mas uma coisa que de repente fosse até mais racional, quase ninguém deu muita atenção. Talvez pela idade, por todas as experiências traumáticas do passado e por estar tanto tempo longe da mídia, fez com que ele ficasse mais retraído, distante e com uma energia mais baixa.
Nós esquecemos que até nossos ídolos envelhecem e passam por mudanças internas também.
Se ele realmente fez um procedimento estético no rosto, é até curioso diante de toda a expressividade que ele tinha.
As pessoas estranham a passagem do tempo nos próprios rostos, sendo que é a coisa mais natural que existe. Mas eu entendo, a ditatura da beleza sempre irá vencer.
De qualquer forma, a questão que quero pontuar, não é sobre um julgamento sobre o que ele fez ou deixou de fazer, mas sobre o nosso estranhamento diante da montanha russa da vida que inevitavelmente nos deixa marcas profundas.
Temos a tendência de querer que as coisas permaneçam iguais, estáticas e lineares.
Isso só reflete a nossa insegurança e medo diante do absurdo da vida.
Sim, nós sentimos medo, angústia, tristeza, raiva e tudo que compõe a gama de emoções humanas. Só que aprendemos a nos anestesiar para encarar, ou melhor, fugir.
Tenho a impressão que estamos fugindo cada vez mais daquilo que é cru sobre nós mesmos.
Vejo adultos se mimando através de todas as distrações possíveis para fugir de si mesmo. Compras fúteis, álcool, outras drogas, redes sociais, fast food, uso indiscriminado de medicações e por aí vai.
Discussões sobre saúde mental já evoluiu muito, mas se não cuidarmos, permaneceremos analfabetos emocionais.
Sem teoria de conspiração, mas tem inúmeras coisas do mundo moderno que faz você se afastar daquilo que realmente importa. A guerra não é só lá fora, a guerra é interna.
Sem demonizar ou querer ser oito ou oitenta, mas precisamos estar sempre atentos. As ferramentas estão aí para nos auxiliar e não para retrocedermos.
É curioso como o mundo está ficando cada vez mais sem expressão e autenticidade.
Um rosto estático da moda, arquitetura sem muitas cores e sem muitas curvas, relações frias (diante do impacto das tecnologias) e um marketing que expressa tudo, mas não verbaliza nada.
Ah, e uma IA que gera fotografia e ganha concurso.
É performance atrás de performance e ninguém falando que não está bem.
Afinal, o mais importante é parecer feliz, realizado e eternamente jovem. Enquanto der para utilizarmos as nossas muletas para nos anestesiarmos, nós seguimos a vida.
Fugimos do desconforto como o diabo foge da cruz, até quando você vai fugir da condição humana? Até para nascer dói.
Em busca da tolerância e do bom senso

Falamos muito da tecnologia e da internet, mas elas não são o problema. O problema está nas pessoas.
Igual quando falamos de dinheiro. O problema é quem está por trás das coisas.
A internet só expôs a podridão que habita em nós mesmos. E ao adaptarmos o nosso cérebro a essa câmara de eco que são os algoritmos, nos tornamos cada vez mais intolerantes.
As nossas bolhas parecem sempre ser as melhores e quando surge algo diferente de nós, já torcemos o nariz.
Estamos desaprendendo a ter uma conversa sensata e com elegância. Discussões com alguém que pensa diferente de você, pode te enriquecer de conhecimento e te fazer crescer na humildade, mas a realidade é outra.
A banalização e a polarização já tomaram conta ao ponto de emergir a violência gratuita. Parece uma mistura de emburrecimento com ‘economia cognitiva’.
As ferramentas tecnológicas podem otimizar o trabalho, mas ainda corre o risco de ficarmos acostumados a não fazer esforço cognitivo.
Não sou contra a Inteligência Artificial ou coisa do tipo, mas confesso que me assusta a quantidade de terceirizações que estamos fazendo nos últimos anos.
Nosso cérebro adora economizar energia. Agora imagina ele dentro do mundo moderno onde você pode pedir comida com a ponta dos seus dedos, demanda suas questões para um terapeuta, compra um robô para limpar sua casa…
Complexo né?
É óbvio que não estou fazendo uma crítica direta, até porque eu já fiz muita terapia. Se liga no contexto!
Mais do que nunca, acho importante manter nosso fluxo criativo vivo, através do exercício da nossa intuição e criatividade natural através das nossas vivências, estudos e inspirações. Pessoas se conectam com pessoas, e isso não tem como mudar.
Todos nós sabemos que o Brasil despencou na leitura. Ler um livro hoje em dia é quase correr uma maratona. Infelizmente isso é um cérebro mimado.
Não deixe de elaborar coisas complexas, porque isso leva tempo. Construir coisas leva tempo, não é no tempo de um reels. O imediatismo pode te matar aos poucos.
Porque com toda essa “evolução”, o que vai sobrar de você?
Percebe? O que acontece com as coisas que não são mais utilizadas? Estamos morrendo por dentro. Nosso lado intelectual, emocional e até espiritual, tudo mofando.
Obs. A nossa caixa de comentários está aberta mais abaixo, caso o leitor queira participar. Não é obrigatório, mas escrever o seu nome e a cidade enriquece a interação.
*O material pode ser reproduzido, desde que seja dado os créditos, com o nome do autor e da empresa, no início da matéria, como no exemplo deste conteúdo. Caso esta prática não seja respeitada – com o nome ao final do texto somente – o conteúdo acima está desautorizado para reprodução, podendo sofrer consequências judiciais. A prática existe para preservar o investimento feito pela Tv Sobrinho no seu Jornalismo.




