Traumas familiares, busca pela perfeição profissional e vulnerabilidade estão entre os temas encontrados na série
Carina Yano/Tv Sobrinho –
Fazia tempo que eu não assistia algo que me tocasse dessa forma. Antes de começar, fique tranquilo, não irei dar detalhes da série a respeito de spoilers. Apenas algumas reflexões que tirei dela. Claro, em algum momento posso citar alguns flashes da história.
Na primeira impressão, você imagina que The Bear é apenas uma série sobre um restaurante totalmente caótico – onde a alta gastronomia se apresenta de forma acelerada, barulhenta e claramente sem ordem.

Mas no decorrer da história, você começa a entender o porquê de ele ser assim. Afinal, todo mundo tem uma história, um passado – que muitas vezes envolve muita dor, traumas e ressentimentos.
E quando se diz em traumas familiares, a narrativa se torna intensa e cheia de complexidade. Quem não se identifica? Quem tem uma família perfeita?
O interessante é que mesmo sendo um ambiente difícil de ser digerido, as pessoas que estão ali continuam tentando dar o seu melhor. Tentando ser melhor.
O protagonista Carmy, consegue transmitir o suprassumo do que é a ansiedade. Apesar de incrível, é extremamente desafiador assistir a série. Pelo menos na primeira temporada. De forma proposital, são cortes rápidos e planos close-up – bem próximo do rosto.

E como toda ansiedade, existe um motivo dele se colocar numa pressão extrema. Perda do irmão, um passado com chefs de cozinha que faziam cobranças desumanas, crise financeira, família caótica e uma vontade genuína de fazer o restaurante dar certo – como se fosse um legado. Dá a impressão de que ele precisava honrar o que o irmão deixou.
Mas tudo tem um preço. Talvez, em algum momento da vida, ele já não soubesse quem ele era sem estar na cozinha.
A série também mostra a importância de entrar em contato com outras pessoas que sabem mais que nós. Novas experiências, novos aprendizados, uma nova visão para se inspirar e que, muitas vezes, são enriquecedoras.

Além dessa transformação do lado de fora, ela também começa acontecer do lado de dentro. É um momento da série, quando a ordem começa a se apresentar de forma sutil.
Inevitavelmente, em algum momento da vida, começamos a olhar mais para dentro e perceber que existe muita coisa a ser mudada. E essa mudança, muitas vezes, é gradual, leva tempo e é cercada de dores.
Mas para essa mudança começar a acontecer é necessário se olhar com mais compaixão. Diminuir o volume das vozes da autocobrança e dar vazão para o sentir. Quando nos lembramos que também somos apenas humanos e que os erros, às vezes, simplesmente acontecem, começamos a ser mais compreensivos e empáticos com os outros.
Claro que esse caminho é forjado no fogo e construído a cada dia. Afinal, todo mundo tem uma história.

Quem gosta de olhar para os próprios defeitos? É bem fácil identificar as falhas dos outros, e inclusive, apontá-las. Mas a real, é que não temos controle sobre isso. Só naquilo que podemos melhorar em nós mesmos. É necessário olhar para essa parte caótica de nós mesmos e lembrar que também existe nas pessoas próximas a você.
E o que fazemos com isso? É uma escolha continuar amando as pessoas.
Na maioria das vezes, esse processo não é fácil e nem gostoso. É difícil para qualquer um. Mas existe um significado maior, e talvez, seja por isso que valha a pena.
Mesmo havendo tantos temas profundos como estes na série, a comida não deixa de ser uma protagonista. Na minha cabeça, o ato de cozinhar para alguém ou compartilhar os momentos através da comida é um dos gestos e ações que envolvem muita generosidade. É secular, a gente se reúne para comer. Simples assim.
E se não existe beleza nisso, eu já não sei mais de nada.
A série também nos faz refletir sobre as nossas escolhas e nossas prioridades. Em algum momento, iremos nos dedicar mais em algo e, em sacrifício, iremos abandonar outras coisas.
A mudança e a transformação dos personagens são totalmente visíveis e humana. O ato de se expressar da forma mais vulnerável possível, se apresenta de forma contemplativa e que emociona. Às vezes, parecia que eu estava assistindo um documentário, algo real.
Ela entrega de forma crua e simples que apesar de sermos adultos, nós ainda temos os nossos medos. Quando criança, nossos medos eram outros. Agora, eles parecem ser insignificantes.
Nós amadurecemos, mas todo mundo precisa de afeto.

Apesar dos pesares, os personagens continuam amando uns aos outros e tentando ser melhores na medida do possível. Eles bancam até onde podem, pelo fato de existir propósito e significado.
A personagem Sydney, mostra claramente através de sua escolha por permanecer no restaurante, que apesar de todo o caos, ela ainda encontrava bondade no espaço – mesmo com um restaurante cheio de dívidas.
Por fim, apesar de toda a tensão e busca pela perfeição profissional, o que fica são as potências humanas traduzidas em ações benevolentes com os outros, não apenas da família.
E que não atoa, o nome da série The Bear (O Urso), traduz a força voraz, agressividade e ao mesmo tempo a ‘fofura’ e gentileza que carrega um urso.
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