Que saudade é essa que não sei nomear?

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Foto: Ilustrativa/Pinterest

Nostalgia, angústia existencial, melancolia? Uma reflexão íntima, mas que respinga no coletivo

Carina Yano/Tv Sobrinho –

Sabe aquela sensação familiar?

Um cheiro, um raio de sol, o céu azul escuro (próximo de chover), um som…

Eu sempre tive um certo fascínio por coisas específicas e eventos da natureza.

Como por exemplo: a sensação de acordar de madrugada e ir pegar a estrada. Logo em seguida você vê o dia nascendo, as cores do céu se transformando em outras cores, o cheiro do orvalho e o silêncio extremamente confortável.

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Ou quando você está caminhando em um lugar deserto e vê uma casa solitária no meio do nada ou qualquer outra coisa isolada no meio do nada.

A sensação de ver a chuva cair enquanto o sol está do outro lado. A famosa hora azul ou blue hour nos finais de tarde, quando o céu começa a ficar com um azul tão forte que dá vontade de chorar de tão belo. Ainda mais quando se mescla com as luzes amarelas dos postes da cidade.

Também me causa conforto no coração quando estou numa praça e as pessoas estão vivendo coisas reais, compartilhando momentos e apenas se divertindo. Normalmente quando viajo, gosto de observar mais o comportamento das pessoas.

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Inclusive, quando eu viajava muito de ônibus sempre escutava música no fone de ouvido e imaginava cenários na minha cabeça, olhando pela janela do ônibus.

Outra coisa legal é quando você conversa com alguém numa madrugada, caminhando por algum lugar, ou depois de uma festa e a conversa é honesta e cheia de autenticidade.

Sem preocupação com o tempo ou em tirar foto.

Eu ficaria horas citando inúmeras situações diferentes que me causam um certo conforto e que sempre me causaram.

Algumas coisas são memórias do passado outras são coisas que nem eu sei explicar.

As que eu não sei explicar, vem de um lugar muito íntimo. É como se a natureza fosse uma grande amiga minha, e com isso, eu nunca me sentia sozinha.

Quando eu olhava para o céu, e ele olhava pra mim, era como se fosse uma conexão de muito tempo. Quando vejo uma tempestade se formar, isso inunda meus olhos.

Foto: Ilustrativa/Pinterest

Também vejo beleza em dias de Sol, mas aquelas dias azuis acabam sendo um conforto sentimental pra mim.

Talvez seja porque tempos mais reclusos acabam sendo uma “permissão social” de ficar mais em casa, socializar menos e fazer coisas que pessoas introvertidas gostam rs.

Aquele silêncio que citei sobre a madrugada ou até em lugares mais solitários, acho que seja porque carrega um peso diferente.

É como se nesse silêncio morasse algo misterioso e aquilo me cativa de alguma forma.

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Costumo dizer que o que me faz acordar todos os dias, não são os boletos, são as coisas que ainda eu não sei. São coisas que eu ainda posso explorar, conhecer.

Ou seja, o mistério.

Mas claro, além disso, esse silêncio especifico também é um espaço de limpeza mental, criatividade e tédio aconchegante.

Só sei que hoje em dia sinto muita saudade de coisas que não sei por nome.

Talvez eu sinta saudade de todas essas coisas, mas o engraçado é que essa saudade também já se apresentava nos momentos passados.

É como se fosse papo de outra vida mesmo. Aquela coisa: eu não sou desse mundo.

E pra se conectar com os nossos dias atuais, acho que faz muito sentido.

Sinto que o que estamos vivendo hoje é algo totalmente diferente de 8 ou 5 anos atrás, talvez mais anos… não sei.

Só sei que existe uma coisa estranha no mundo, no ar. Ou talvez estou me tornando uma tia que vem com aqueles papo de velha: “no meu tempo…” kkkk.

Foto: Ilustrativa/Pinterest

E por incrível que pareça, uma onda assim anda acontecendo. Os nascidos nos anos 90 já estão sentindo o peso da nostalgia. Eu nasci nos anos 90 e me sinto feliz por ter vivido intensamente a fase da infância.

Acho que tem algumas coisas citadas acima que se conectam com essa fase.

Aquela fase onde o tempo parecia caminhar mais devagar. Uma fase onde era fácil pegar um livro grosso do Harry Potter e terminar numa semana.

Uma fase onde ninguém levava o celular para o banheiro, mas lia o rótulo do shampoo ou um gibi. Uma fase onde parávamos para conversar com alguém e sabíamos escutar.

Uma fase onde não tinha tanta performance e nem tanta comparação porque não tínhamos acesso as vitrines das vidas alheias.

Antes de qualquer coisa, não estou abominando a fase adulta e nem romantizando épocas. Só estou mostrando coisas reais. Cenários que vivi e que estamos vivendo.

Não digo sobre um lugar ser melhor ou pior que o outro.

O que estou dizendo é sobre a vitalidade que uma fase carrega.

Todas as fases das nossas vidas são maravilhosas. Cada uma carrega algo diferente.

Mas sinto que o que estou querendo trazer é maior que tudo isso.

É como se a tecnologia estivesse sugando toda a nossa vitalidade: as cores da vida e a nossa própria humanidade. O excesso de informação está nos deixando cada vez mais dessensibilizados.

E pra ser um pouco mais crítica, o problema talvez seja mais complexo do que culpar apenas a tecnologia. Nosso cérebro é muito sensível ao muitos estímulos e poucas pessoas tem esse conhecimento.

Todos nós acabamos nos tornando escravos de um dispositivo móvel. Essa é a real.

Foto: Ilustrativa/Pinterest

Honestamente eu sinto falta de uma fase onde eu não precisava estar conectada o tempo todo. E sim, quando precisava ligar o computador.

De tempos em tempos eu reflito sobre isso. Fico pensando: como está a minha leitura? Como está a minha criatividade? Como está minha capacidade de raciocínio critico? Como está a minha liberdade?

Isso é muito sério.

O cenário é preocupante, mas eu sei que ainda existe vida em todos os lugares. Existe permissão para contemplar a vida, existe esforço sabendo que isso irá trazer retorno a longo prazo, existe relações duradouras e existe a natureza se reinventando a cada dia.

Quando sinto que estou vivendo no automático, costumo tentar lembrar novamente quais são as faíscas que fazem minha alma brilhar novamente. Quais são as sensações que preciso resgatar e me conectar novamente.

Nós nos tornamos adultos, mas ser adulto não é só pagar as contas e sobreviver. Nós não podemos nos esquecer da nossa própria essência e não podemos deixar os desafios da vida endurecer o nosso coração.

A vida continua caminhando pra frente, precisamos abraçar as mudanças, mas também devemos sempre lembrar que a parte mais pura de nós mesmos está naquele lugar de exploração e mistério.

Foto: Ilustrativa/Pinterest

“Senta aqui ao meu lado e deixa o mundo girar, jamais seremos tão jovens.” (William Shakespeare)

 

Carina Yano tem 30 anos e é formada em fotografia com três fotos publicadas na Vogue Itália. Trabalhou durante 7 anos como jornalista. No momento trabalha como massoterapeuta, colunista da Tv Sobrinho e Youtuber. Seu amor pela escrita é um romance antigo. Desde a sua adolescência escrevia, mas só agora teve a oportunidade de expor em público suas reflexões.

*O material pode ser reproduzido, desde que seja dado os créditos, com o nome do autor e da empresa, no início da matéria, como no exemplo deste conteúdo. Caso esta prática não seja respeitada – com o nome ao final do texto somente – o conteúdo acima está desautorizado para reprodução, podendo sofrer consequências judiciais. A prática existe para preservar o investimento feito pela Tv Sobrinho no seu Jornalismo.

 

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