Como a crise de um banco digital derrubou o presidente do Paraguai em apenas dois dias? Veja a cronologia

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Foto: A Publica

Com cerca de três milhões de clientes afetados pelo bloqueio de contas, escândalo financeiro provocou manifestações, crise política e pedido de julgamento político contra Santiago Peña

G1 Globo e O Globo –

Na última terça-feira (03), cerca de três milhões de clientes de um dos principais bancos do Paraguai perderam acesso às suas contas. Já na quinta-feira (05), encurralado pelo escândalo, o presidente Santiago Peña perdeu o apoio de seu partido e anunciou sua renúncia.

Em apenas dois dias, a derrocada do Ueno Bank, vinculado ao presidente aliado dos Estados Unidos, levou centenas de manifestantes às ruas de Assunção e os deputados a votar por unanimidade a favor de submetê-lo a um processo de impeachment. Confira a seguir os fatos-chave que determinaram a queda de Peña:

Terça-feira: o banco

O Banco Central do Paraguai (BCP) anunciou a intervenção do Ueno Bank. Seu índice de solvência tinha caído abaixo da metade do mínimo exigido. O banco tinha cerca de três milhões de clientes em um país de 6,4 milhões de habitantes. Também gerenciava fundos do Instituto de Previdência Social e do Ministério da Economia e Finanças.

O Ministério Público ordenou a detenção de oito diretores do banco. No mesmo dia, a pedido de Peña, o presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, renunciou. Ele tinha presidido a financeira Ueno antes de assumir o cargo no organismo regulador.

Santiago Peña: presidente do Paraguai renuncia — Foto: Jeenah Moon/Bloomberg
Santiago Peña: presidente do Paraguai renuncia — Foto: Jeenah Moon/Bloomberg

Peña, que chegou à Presidência em 2023 com mandato até 2028, foi acionista até março do ano passado do Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank.

Quarta-feira: protestos e acusação

Com os depósitos bloqueados, Peña promulgou, na quarta-feira, uma lei para devolver a maior parte do dinheiro em menos de uma semana. Na mesma quarta-feira, 35 deputados, entre opositores e dissidentes do governo, apresentaram uma acusação para submeter o presidente e seu vice, Pedro Alliana, a um julgamento político.

Como o banco digital do Paraguai foi à lona?

Atribui-se a Peña um conflito de interesses e ele foi acusado de favorecer o banco com decisões regulatórias e depósitos de fundos previdenciários. À noite, centenas de pessoas protestaram em Assunção pelo segundo dia consecutivo.

Os poupadores exigiam a retirada de seu dinheiro e alguns exibiam cartazes com o lema “Julgamento político contra Santi Peña”. “Devolvam nossa grana”, repetiam em coro. Houve confrontos com a polícia, que usou bombas de gás lacrimogêneo e caminhões hidrantes para dispersar os manifestantes.

Manifestantes tomam as ruas em protesto contra crise do banco digital Ueno — Foto: DANIEL DUARTE / AFP
Manifestantes tomam as ruas em protesto contra crise do banco digital Ueno — Foto: DANIEL DUARTE / AFP

Quinta-feira: Peña perde o apoio de seu partido

Na manhã de quinta-feira, o ex-presidente Horacio Cartes (2013-2018), titular do governista Partido Colorado, anunciou que apoiava o julgamento político de Peña. Passadas as 10h30 locais (mesmo horário em Brasília), a Câmara dos Deputados abriu a sessão para tratar da acusação. Em meio ao debate, Peña anunciou sua renúncia em um vídeo postado no X.

“Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República (…) Quero pedir desculpas ao povo se em algum momento eu falhei”, disse.

Minutos depois, os 78 deputados presentes aprovaram a acusação contra Peña. Em uma segunda sessão, a Câmara rejeitou o pedido de julgamento político contra Alliana por 48 votos a 30.

Cabe às duas câmaras do Congresso aceitar ou não a renúncia de Peña. Se a rejeitarem, o Senado terá que julgá-lo e decidir se o destitui. Se a Presidência ficar vacante, Alliana deverá completar o mandato até 2028.

Paraguai começa a devolver dinheiro a clientes do Ueno Bank

O Banco Central do Paraguai começou a pagar na tarde de quinta-feira (5) os primeiros valores a clientes do Ueno Bank, cuja intervenção deixou cerca de 3 milhões de correntistas sem acesso ao dinheiro e provocou uma crise política no país.

A entidade publicou uma página explicando como funciona o resgate dos montantes e como consultar os pagamentos.

A informação foi confirmada nesta sexta-feira (6) à agência AFP por José Maciel, diretor da Unidade Administradora do Fundo de Garantia de Depósitos (FGD) do Banco Central paraguaio. O fundo é responsável por garantir a devolução de depósitos aos clientes de instituições financeiras, dentro dos limites previstos em lei.

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