Mais do que uma noite mal dormida, a frequência de falas incompreensíveis e episódios de compulsão na madrugada acende o alerta para distúrbios neuroendócrinos
Raysa Almeida/Tv Sobrinho –
Falar durante o sono e acordar repetidamente para comer podem ser sinais de alterações que vão além de hábitos noturnos. Quando esses episódios se tornam frequentes, é importante investigar as possíveis causas, já que podem estar relacionados a distúrbios do sono ou a transtornos alimentares.
Dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontam que mais de 70% dos brasileiros apresentam algum problema relacionado ao sono. A combinação entre noites mal dormidas e episódios de alimentação noturna, porém, exige uma avaliação individualizada para identificar o que está por trás desse comportamento.
Na medicina, duas condições ajudam a explicar episódios recorrentes de alimentação durante a madrugada: o transtorno alimentar relacionado ao sono (TARS) e a síndrome do comer noturno (SCN).
Apesar de apresentarem características semelhantes, os quadros se diferenciam principalmente pelo nível de consciência durante os episódios e pela capacidade de recordar o que aconteceu.
No transtorno alimentar relacionado ao sono, a pessoa pode se levantar e comer enquanto permanece em um estado de consciência reduzida, semelhante ao sonambulismo. Em alguns casos, há pouca ou nenhuma lembrança do episódio na manhã seguinte. A condição é classificada entre as parassonias, alterações que envolvem comportamentos incomuns durante o sono.

Já na síndrome do comer noturno, a pessoa geralmente está consciente ao acordar e se alimentar, lembrando-se do que ocorreu. O quadro pode envolver o consumo de uma parcela significativa dos alimentos após o jantar, despertares noturnos acompanhados de alimentação e alterações no padrão de sono. A identificação da síndrome depende da avaliação dos sintomas e de sua frequência.
Ansiedade e estresse podem influenciar o sono
A qualidade do sono também pode ser afetada por fatores emocionais, como ansiedade e estresse. Essas condições podem contribuir para despertares durante a noite e alterações no comportamento alimentar, embora a relação entre esses fatores varie de pessoa para pessoa.
Outro fenômeno que pode ocorrer durante o sono é o sonilóquio, nome técnico dado ao ato de falar enquanto se dorme. Embora seja relativamente comum, sua presença isolada não significa necessariamente que exista um problema de saúde. Quando aparece junto a outros comportamentos recorrentes, como levantar-se para comer sem plena consciência, pode ser importante investigar possíveis alterações do sono.
O funcionamento do organismo durante a noite envolve mecanismos hormonais e neurológicos relacionados ao repouso, ao apetite e à saciedade. Mudanças no ritmo circadiano, responsável pela organização dos ciclos biológicos ao longo de aproximadamente 24 horas, podem influenciar esses processos. No entanto, não é possível atribuir episódios de alimentação noturna a um desequilíbrio hormonal específico sem avaliação clínica.

Quando procurar ajuda?
A repetição dos episódios, a dificuldade para voltar a dormir, o cansaço durante o dia e a sensação de perda de controle sobre a alimentação são sinais que merecem atenção. Também é importante buscar avaliação quando a pessoa acorda sem se lembrar de ter comido ou apresenta comportamentos incomuns enquanto está parcialmente adormecida.
O diagnóstico considera o histórico do paciente, os hábitos alimentares, a qualidade do sono e a presença de outros sintomas. Em determinadas situações, o especialista pode solicitar uma polissonografia, exame que registra diferentes parâmetros fisiológicos durante uma noite de sono.
O acompanhamento com profissionais de saúde permite diferenciar as condições e definir a abordagem mais adequada. Por isso, episódios frequentes de alimentação durante a madrugada não devem ser tratados apenas como falta de disciplina ou força de vontade, mas como um comportamento que pode precisar de investigação médica.
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