O dinheiro que chega à ponta, por Euzi Rhamos

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Foto: Divulgação

Euzi Rhamos/Tv Sobrinho –

Há uma discussão brasileira que costuma caber em duas frases: “dar dinheiro para pobre é sustentar vagabundo” de um lado; “programa social resolve a pobreza” do outro. Entre os dois extremos existe uma realidade bem menos confortável — e bem mais interessante.

O plano de governo de Lula aposta novamente na combinação entre proteção social, valorização da renda, investimento público, emprego e fortalecimento do mercado interno. A proposta parte de uma ideia simples: quando a população de menor renda tem dinheiro no bolso, ela não costuma guardá-lo em paraísos fiscais. O dinheiro vai para o mercado, a farmácia, a padaria, o açougue, a feira, o pequeno comércio da própria cidade.

E aí acontece algo que muitas vezes desaparece no debate político: o dinheiro circula.

O benefício recebido por uma família pode virar compra no comércio local. A compra vira faturamento para o comerciante. O comerciante paga fornecedor, funcionário, aluguel, energia e impostos. O dinheiro passa de mão em mão e movimenta uma economia que, em cidades pequenas, depende justamente desse consumo cotidiano.

Não é romantismo. Há evidências econômicas disso. Um estudo do Banco Mundial sobre o Bolsa Família encontrou efeitos positivos sobre consumo, emprego formal e arrecadação de impostos nas localidades onde o programa se expandiu.

Mas aqui começa a parte que não pode ser escondida debaixo do tapete.

Benefício social é proteção, não pode ser confundido com motor único de desenvolvimento. Se o Estado apenas distribui renda sem ampliar produtividade, emprego, educação, infraestrutura e oportunidades, cria-se uma economia dependente da transferência pública.

O próprio plano de Lula tenta responder a essa crítica ao defender investimentos, geração de empregos, industrialização, infraestrutura e fortalecimento do mercado interno. A questão é saber se essas promessas serão executadas com eficiência e, sobretudo, quanto custarão.

Também existe o outro lado da moeda: dinheiro público não nasce em árvore. Sai dos impostos, da atividade econômica e da capacidade de arrecadação do Estado. Portanto, não basta perguntar quanto o governo pretende distribuir. É preciso perguntar quanto pretende gastar, de onde virá o dinheiro e qual será o retorno para a sociedade.

Lula propõe responsabilidade fiscal, mas responsabilidade fiscal não deveria ser apenas uma expressão bonita em programa eleitoral. Precisa aparecer nas contas.

Há méritos na ideia de proteger quem está na pobreza e estimular o consumo. Há riscos quando a política social se transforma em dependência permanente. Há mérito em colocar o pobre no orçamento. Há risco quando o Estado passa a acreditar que orçamento substitui desenvolvimento.

Talvez a discussão madura esteja justamente aí: não precisamos escolher entre assistência social e crescimento econômico.

Precisamos de assistência para que ninguém caia no abismo e de crescimento para que cada vez menos pessoas precisem ser amparadas.

Porque o dinheiro que chega ao pobre realmente pode movimentar a economia.

Mas o verdadeiro sucesso de uma política social seria fazer com que, algum dia, o cidadão consiga viver bem não apenas porque recebeu um benefício — mas porque encontrou trabalho, renda, oportunidade e dignidade para caminhar com as próprias pernas.

No fim das contas, governo nenhum deveria querer administrar eternamente a pobreza.

Deveria querer diminuir a fila de quem precisa dele.

 

Euzí Rhamos – Foto: Divulgação

Euzi Rhamos – Escritora e poeta mística. Residente em Mundo Novo há 45 anos, sua obra transforma as palavras em sentimentos poéticos desde os 12 anos. Autora de ‘O despertar do véu’, vol. l e ll, bem como “Âmago Ancestral”. A palavra, sentimentos e emoções podem mudar vidas e é através deste poder que a autora nos convida a trilhhar o caminho para dentro.

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