Ocular, por Euzi Rhamos

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Euzi Rhamos/Tv Sobrinho –

 

Na calada de algumas noites, observei pessoas jogadas ao vento, sem alento, sem amor. Pessoas que pareciam ter perdido o endereço de si mesmas.

 

Dei alguns passos e encontrei meninas de “vida fácil” entregando o corpo ao seu pagador, enquanto, por dentro, afogavam-se em dores que ninguém via. Embriagavam-se não apenas para esquecer a realidade, mas para silenciar os abusos, os traumas, o caos de uma família adoecida há gerações.

 

Continuei caminhando pelas grandes noites e testemunhei loucuras de personalidade que pareciam se dissolver a cada amanhecer. Há dores que não fazem barulho. Instalam-se devagar, como um hóspede indesejado que, de tanto permanecer, acaba tomando conta da casa.

 

O quarto escuro é um alarme.

 

O sono desmedido, a preguiça que não passa, a vontade de não levantar, de não responder, de não existir por algumas horas… São pequenas bandeiras brancas que o corpo ergue quando a alma já não consegue pedir socorro.

 

E então vi o mundo desabar como uma avalanche sobre uma cabeça cansada, onde o juízo já não encontra morada. Vi a escuridão avançar como uma serpente, silenciosa e dominante, enrolando-se ao redor do coração.

 

Tantas vezes se pensa em morrer.

 

E talvez seja justamente aí que esquecemos o quanto pode ser incalculável a capacidade humana de superar os próprios abismos.

 

Somos seres humanos esvaídos por nossos traumas, muitas vezes procurando na destruição uma saída para a dor. Buscamos um tufão de novidades, qualquer coisa que nos arranque do lugar onde estamos, mesmo que esse movimento nos leve ainda mais para longe de nós mesmos.

 

O problema é acreditar que alguém poderá salvar aquilo que ninguém conhece.

 

Há batalhas que acontecem atrás dos olhos. Há guerras travadas em quartos fechados, enquanto, do lado de fora, todos acreditam que está tudo bem.

 

Superar não é tarefa fácil.

 

Às vezes, é um passo minúsculo depois de outro. Às vezes, é simplesmente conseguir levantar da cama. E, para quem acredita, existe ainda a mão invisível de Deus, que não impede todas as quedas, mas pode nos ensinar que ainda existe chão depois do abismo.

 

Todo mundo cai.

 

Quem nunca caiu, ainda vai cair.

 

Cai na calçada, cai na rua, cai no álcool, cai na droga, cai nos próprios pensamentos, cai em escolhas que prometiam alívio e entregaram mais dor.

 

Não é desejo. É realidade.

 

Uma hora ou outra, aquilo em que acreditamos desmorona. A vida, então, parece tão frágil quanto um castelo de cartas — sejam elas marcadas ou não.

 

Mas talvez a queda também faça parte da construção.

 

Deus nos permite sucumbir não porque queira nos ver no chão, mas porque algumas lições só aprendemos quando precisamos encontrar forças para nos levantar.

 

E talvez exista uma verdade escondida em todas essas noites que observei:

 

ninguém atravessa a escuridão sendo exatamente a mesma pessoa que entrou nela.

 

Alguns saem feridos.

 

Alguns saem diferentes.

 

E alguns, depois de conhecerem profundamente o próprio abismo, descobrem que ainda havia dentro deles uma pequena luz — suficiente para começar tudo outra vez.

 

 

Euzí Rhamos – Foto: Divulgação

Euzi Rhamos – Escritora e poeta mística. Residente em Mundo Novo há 45 anos, sua obra transforma as palavras em sentimentos poéticos desde os 12 anos. Autora de ‘O despertar do véu’, vol. l e ll, bem como “Âmago Ancestral”. A palavra, sentimentos e emoções podem mudar vidas e é através deste poder que a autora nos convida a trilhhar o caminho para dentro.

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