O Fio Invisível da Pólis, por Euzí Rhamos

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Imagem: IA

Euzí Rhamos –

Há palavras que atravessam os séculos carregando dentro de si a memória de um mundo. Política é uma delas.

Sua origem está na Grécia antiga, em pólis, a cidade. Não apenas como espaço de ruas, casas e muros, mas como lugar onde a vida individual encontrava o destino coletivo. De pólis nasceu politiké: aquilo que diz respeito à cidade, ao cidadão, à vida em comum.

Talvez seja justamente aí que esteja a essência que fomos esquecendo.

A política nasceu como uma tentativa humana de organizar o caos, estabelecer acordos e construir pontes sobre o abismo das nossas diferenças. Era o reconhecimento de que, embora cada pessoa habite seu próprio universo, todos pisamos o mesmo chão.

Hoje, porém, a praça parece ter se transformado em arena.

O debate público ganhou arquibancadas, bandeiras e torcidas. Vestimos as cores de nossos grupos como quem veste uma armadura e, muitas vezes, passamos a enxergar o outro não como alguém que pensa diferente, mas como alguém que precisa ser derrotado.

O coletivo cede espaço ao “meu lado”.

E há uma ironia nisso tudo.

Muitos dizem: “Não gosto de política.”

Mas como não gostar daquilo que atravessa quase tudo o que somos?

A política está na escola dos nossos filhos, no hospital que nos atende, no preço do alimento, na rua que caminhamos, na água que chega à torneira. Está nas decisões que determinam, silenciosamente, a qualidade da nossa vida.

Até o silêncio pode ser político.

Quando escolhemos não olhar para uma injustiça, quando cruzamos os braços diante da dor do outro ou quando acreditamos que determinado problema não nos pertence, também estamos ocupando a pólis — ainda que pela ausência.

Não existe como desembarcar completamente da cidade.

Podemos fechar a porta de casa, mas continuamos respirando o mesmo ar social.

Talvez o grande problema do nosso tempo seja termos transformado a política em uma disputa de espelhos. Cada lado olha para o próprio reflexo e acredita estar diante da imagem inteira do mundo.

Mas nenhum espelho revela a paisagem completa.

A política deveria ser justamente o contrário: uma janela.

Uma janela aberta para aquilo que não conhecemos, para a realidade do outro, para as necessidades que não são nossas, mas que ainda assim fazem parte da mesma casa.

Uma boa política não deveria pertencer a uma cor, a uma bandeira ou a um lado da avenida. Deveria ser o fio que costura as diferenças sem precisar apagá-las.

Porque uma cidade não é feita apenas de prédios, ruas e praças.

Uma cidade é feita de pessoas

E pessoas são como raízes: diferentes na forma, profundas em caminhos que não podemos ver, mas entrelaçadas no mesmo solo.

Talvez seja hora de reaprendermos a palavra política.

Não como sinônimo de briga.

Não como campeonato.

Não como instrumento de poder.

Mas como aquilo que ela um dia nos ensinou a ser: cidadãos de uma mesma pólis.

Porque, enquanto continuarmos disputando as cores da superfície, talvez esqueçamos a verdade mais simples — e mais profunda:

é na mesma terra que as nossas raízes se encontram.

Euzí Rhamos – Foto: Divulgação
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