Criminosos criaram chave Pix para adolescente comprar gilete antes de morte em Naviraí, revela investigação

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Durante a Operação Lívia, autoridades revelaram que organização criminosa controlava a vítima pela internet, enviava dinheiro para automutilação e já planejava fazer uma nova vítima antes da ação policial

TaNaMidiaNavirai –

Os integrantes da organização criminosa investigada pela morte de uma adolescente de 13 anos, em Naviraí, chegaram a criar uma chave Pix para a vítima e enviar dinheiro para que ela comprasse uma gilete utilizada na automutilação, sem que a mãe soubesse da existência da conta.

A revelação foi feita ontem terça-feira (4), durante coletiva do Ministério da Justiça e Segurança Pública, que apresentou novos detalhes da Operação Lívia e da investigação conduzida pela Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente, de Mato Grosso do Sul.

Segundo o coordenador do Ciberlab (Laboratório de Operações Cibernéticas), Alessandro Barreto, a forma como a chave Pix e a eventual abertura da conta foram realizadas ainda é alvo de investigação, mas o episódio demonstra o nível de controle exercido pelos investigados sobre a adolescente.

A mãe não sabia que ela tinha chave Pix. Os próprios criminosos criavam chave Pix para a menina, mandavam dinheiro para comprar gilete para se automutilar. Até essa abertura de conta está sendo verificada“, afirmou o coordenador.

As autoridades afirmaram que esse domínio ia muito além da manipulação psicológica. Segundo a investigação, os integrantes da organização controlavam o cotidiano das vítimas, determinavam desafios, acompanhavam o cumprimento das ordens em tempo real e utilizavam diferentes plataformas digitais para manter contato permanente com os adolescentes recrutados.

A investigação teve início após a morte da adolescente, registrada em julho, em Naviraí. As primeiras diligências conduzidas pela DEPCA, em conjunto com o Ciberlab, mostraram que o caso não era isolado, mas fazia parte da atuação de uma organização criminosa estruturada, com alcance nacional, voltada ao recrutamento de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade emocional.

Segundo a Polícia Civil, os investigados se aproximavam das vítimas pela internet, conquistavam sua confiança e, gradualmente, ampliavam o controle psicológico por meio de isolamento, humilhações, desafios de violência crescente, automutilação e outras exigências impostas para fortalecer o domínio exercido pelo grupo.

Durante a coletiva, o secretário nacional de Direitos Digitais do MJSP, Victor Oliveira Fernandes, explicou que a organização utilizava diferentes plataformas para executar cada etapa da ação criminosa.

Esse grupo atua simultaneamente no Telegram, fazendo comunicações e propagandas de eventos de automutilação e de induzimento ao suicídio de crianças e adolescentes, que são transmitidos em tempo real dentro da plataforma do Discord“, afirmou Victor.

Segundo ele, foi justamente uma dessas transmissões investigadas que terminou na morte da adolescente sul-mato-grossense.

Num desses casos, infelizmente, veio a culminar numa situação de suicídio por parte de uma vítima do Estado do Mato Grosso do Sul.”.

Estrutura organizada – A investigação revelou que a atuação do grupo ia muito além de um servidor criado em plataformas digitais.

Conforme Victor Oliveira Fernandes, os policiais encontraram documentos, conversas, planejamento e discussões sobre recrutamento de novos integrantes, indicando que a organização mantinha uma estrutura permanente de funcionamento.

“Não se trata simplesmente de existir um grupo aberto numa plataforma. A investigação tem documentação de uma sistematização, mais de um grupo, uma série de diálogos, reunião de documentos e discussão sobre recrutamento de novos integrantes”, explicou Alessandro.

Segundo a Polícia Civil, a organização atuava de forma contínua, identificando adolescentes emocionalmente vulneráveis e submetendo as vítimas a um processo progressivo de manipulação psicológica.

Durante a apuração, os investigadores também identificaram outra vítima em outro estado e reuniram elementos que indicam a existência de outros adolescentes ainda não localizados.

Operação nacional – As descobertas deram origem à Operação Lívia, coordenada nacionalmente pela DEPCA de Mato Grosso do Sul em conjunto com o Ciberlab, da Secretaria Nacional de Segurança Pública.

Ao todo, foram cumpridas medidas judiciais em Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará e Pará.

Cinco adolescentes, dois de 13 anos, um de 14 e dois de 17 anos, foram apreendidos, enquanto um investigado de 18 anos foi alvo da operação. Computadores, celulares e outros equipamentos eletrônicos passarão por perícia para identificar novas vítimas, esclarecer a atuação da organização e individualizar a participação de cada investigado.

Equipes da DEPCA também foram deslocadas para acompanhar pessoalmente o cumprimento dos mandados em outros estados, reforçando o protagonismo da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul na investigação.

Nova vítima foi evitada – As autoridades revelaram ainda que a investigação impediu um novo episódio semelhante.

Segundo o delegado responsável pelo caso, o monitoramento das conversas mostrou que outro caso já estava sendo planejado. Após a apreensão de um dos adolescentes investigados, a Polícia Civil passou a identificar possíveis vítimas e localizar seus familiares.

Pelo acompanhamento, havia o planejamento e, ontem, na apreensão do adolescente do Rio, ele confessou que realmente já estava agendado. Estamos vendo o nome das possíveis vítimas para mandar avisar os pais e responsáveis para que fiquem atentos”, afirmou o delegado.

Plataformas serão notificadas

Além da responsabilização criminal dos investigados, o Ministério da Justiça informou que notificará Discord e Telegram para solicitar a suspensão das contas e dos servidores utilizados pela organização.

O Ministério da Justiça também encaminhará à ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados) um pedido para apurar possíveis violações ao ECA Digital e ao Marco Civil da Internet.

Segundo Victor Oliveira Fernandes, a investigação identificou indícios de falhas na verificação de idade, na supervisão parental e na moderação de conteúdo das plataformas, mecanismos que, segundo ele, deveriam dificultar a atuação de grupos voltados à exploração e manipulação de crianças e adolescentes.

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