Campo Grande News –
Desenvolvida em parceria direta com comunidades indígenas de 2 aldeias de Mato Grosso do Sul, uma pesquisa busca compreender como saberes ligados ao território, à oralidade e à espiritualidade podem dialogar com a educação formal e ocupar o espaço historicamente negado dentro da escola. Intitulado “Territorialidade e processos próprios de aprendizagens: a cosmovisão no processo educativo guarani e kaiowá”, o estudo é coordenado pela professora Adir Casaro Nascimento, da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco).
Financiado pela Fundect (Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul), segundo a pesquisadora, o estudo parte de um princípio central que busca promover a construção de conhecimento com os povos indígenas. “Nada sobre eles. É com eles”, resume a professora.
A proposta reflete uma trajetória iniciada em 1987, quando Adir passou a atuar junto aos povos Guarani e Kaiowá por meio da pesquisa, da formação de professores indígenas e da formulação das escolas indígenas diferenciadas e específicas. Ao longo desse período, a pesquisadora acompanhou os impactos de um modelo educacional que, historicamente, desvalorizou os saberes tradicionais ao privilegiar uma visão de conhecimento baseada na ciência moderna europeia. Esse processo, segundo ela, negou não apenas conteúdos, mas também línguas, formas de aprender e modos de interpretar o mundo.
“Há uma imposição de um regime de verdade que desconsidera as ciências indígenas, suas tecnologias e seus processos próprios de aprendizagem”, afirma.
Escuta e convivência
O estudo será desenvolvido até 2028 nas aldeias Taquapiri, em Coronel Sapucaia, e Porto Lindo, em Japorã, e contará com participação de indígenas Guarani Ñandeva e Guarani Kaiowá. Atualmente, a professora Adir orienta nove estudantes indígenas, que atuam diretamente no projeto. A presença deles é considerada essencial não apenas pela mediação linguística, mas pela construção de uma abordagem que respeite as lógicas próprias das comunidades.
A iniciativa tem parceria com a UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) por meio da professora Beatriz Landa e envolve também a pós-doutoranda Marinês Soratto. A metodologia rompe com modelos tradicionais de pesquisa. Não há “coleta de dados”, mas escuta e produção conjunta. A equipe realiza rodas de conversa, acompanha rituais, observa o cotidiano nas aldeias e registra narrativas orais, especialmente dos mais velhos, como lideranças, xamãs e parteiras.
“Muitos não falam português. Por isso, é preciso uma escuta sensível, sem impor a lógica acadêmica. A nossa lógica ainda é colonial”, explica.
Território
Um dos eixos centrais do estudo é o conceito de territorialidade. A professora explica que, na pesquisa, o território envolve identidade, memória, espiritualidade e produçã de conhecimento, não se limita à terra física.
Ela acrescenta que é nesse espaço que se desenvolvem os chamados “processos próprios de aprendizagem”, que incluem formas de ensinar e aprender que não estão necessariamente organizadas em disciplinas ou conteúdos escolares, mas que fazem parte do cotidiano das comunidades.
Entre esses processos, conforme a professora Adir, estão a convivência com a natureza, a participação em atividades coletivas, a oralidade e a relação espiritual com o ambiente. Segundo ela, diferente da lógica da ciência moderna, esses saberes não separam ser humano e natureza, nem dissociam conhecimento de prática ou espiritualidade.
“A natureza não é algo externo. Ela faz parte da vida, e isso orienta a forma de aprender e produzir conhecimento”, destaca.
Reconhecer saberes – A pesquisa também busca reorganizar e dar visibilidade a conhecimentos historicamente desvalorizados. A ideia, segundo Adir, não é “resgatar” algo perdido, mas reconhecer como ciência aquilo que já existe nas comunidades.
Ela cita como exemplo práticas desenvolvidas por povos originários que influenciam diretamente a sociedade atual, como o uso de alimentos domesticados após longos processos de experimentação, como a mandioca.
Ao mesmo tempo, o estudo questiona conteúdos ensinados nas escolas que ignoram ou distorcem a participação indígena na história, como as narrativas sobre o processo de colonização.
Produção conjunta – Os resultados da pesquisa, conforme a pesquisadora, serão organizados em relatórios e publicações, sempre com participação das comunidades. O material será discutido com os indígenas antes de qualquer divulgação e poderá ter autoria compartilhada.
Parte desse conteúdo deve retornar às aldeias como suporte para a educação escolar indígena, contribuindo para a formação de professores e produção de materiais didáticos. Nesse contexto, o próprio conceito de material didático é ampliado.
“Pode ser o rio, a roça, a conversa, a história dos mais velhos. O ambiente é o material didático”, afirma a professora.
A pesquisa também considera os desafios contemporâneos, como a presença de tecnologias digitais nas aldeias e as formas como os próprios indígenas utilizam esses recursos para produzir e compartilhar conhecimento.
Diálogo entre saberes – No centro da proposta está a construção de um diálogo entre diferentes formas de conhecimento, sem hierarquia. A intenção não é substituir a ciência acadêmica, mas ampliar o campo de conhecimento.
“É abrir espaço para outras epistemologias e construir uma relação intercultural, sem imposição”, resume Adir.




