Carina Yano/Tv Sobrinho –
“Quando eu chegar lá, serei feliz”. O que isso significa, afinal?
O que é chegar lá? O que é ser feliz?
Vamos chegar no topo da montanha, olhar a vista, admirar e depois descer. Não é?
Depois de muito tempo comecei a desconstruir a ideia de felicidade que eu tinha na minha cabeça. Com leituras, pesquisas e até com as próprias experiências, vamos percebendo que o conceito é muito mais individual do que qualquer outra coisa.
E de certa forma a própria busca incessante se torna uma ação sem sentido. É quase uma fuga de si mesmo e do próprio presente.
Em vez de felicidade, vamos chamar de bem-estar subjetivo (outro termo que aprendi).
Quantas vezes em nossas vidas temos aquela falsa percepção de que quando conquistarmos determinada coisa, iremos ser felizes?
“Ah, quando eu conseguir x de dinheiro, aí sim vou estar feliz.” “Quando eu conquistar determinado relacionamento, vou estar satisfeita.” “Quando eu conseguir construir esse corpo, vou estar bem.”
Nós sabemos que isso não funciona. Já somos PHD nesta situação da vida.
Não existe linha de chegada na vida e nós como seres humanos sempre iremos estar insatisfeitos por vários motivos. A curiosidade é inata a todos nós e nosso instinto de exploração sempre será maior.
A não ser que acomodar seja seu principal objetivo.
A vida se desenrola em outras tramas, novos desafios, novos problemas.. novas perspectivas. Não existe nada estático. Muito menos os nossos desejos e ambições.
Quanto mais dinheiro conseguimos, mais ainda queremos ter. Dentro de um relacionamento existe constante manutenção, cuidado e atenção. Um corpo definido exige esforço, motivação e disciplina.
Estaremos em constante movimento até o dia da nossa morte.
Que lugar é esse que você quer chegar e não fazer mais nada?
A sua vida está tão sem significado assim?

Jordan Peterson já dizia: busque o que é significativo e não o que é conveniente. Reflita sobre essa frase.
Quando pensamos em felicidade, podemos analisar diversas visões dentro da filosofia, psicologia e ciência.
Na filosofia grega, Aristóteles apostava na eudaimonia, ou seja, um aprimoramento das virtudes para a autorrealização. Diferente de hedonismo, que é focado em prazeres momentâneos, a eudaimonia se relaciona com o longo prazo e com propósito.
Já no estoicismo, a verdadeira felicidade era encontrada quando conseguimos aceitar aquilo que não podemos controlar e focar no que realmente temos o poder de ação.
Na psicologia, diversos fatores são apontados, mas um deles que chama mais a minha atenção é sobre compreendermos os altos e baixos da vida, inclusive aceitar a tristeza quando ela se apresenta.
Estudos científicos recentes apontaram que a felicidade e a saúde estão diretamente ligadas à qualidade das relações humanas. Dentro da neurociência, já sabemos que existem vários “hormônios da felicidade”, como a serotonina, endorfina, ocitocina e dopamina.
Independente das linhas de pensamento, é notável perceber algo curioso.
Não existem respostas com verdades absolutas, mas existem conexões. Alguns hormônios estão diretamente relacionados a atividades que exigem construção, tempo, manutenção e esforço.
O mundo atual te cobra para ser feliz o tempo todo, mas faz de tudo para desequilibrar todo o seu sistema como um todo, atingindo a forma como o seu corpo funciona e a sua mente. Comidas hiperpalatáveis, excesso de estímulos através das telas, luz branca durante a noite, sedentarismo, escassez de afeto etc.

Quando digo o mundo atual, me refiro a diversas performances que vemos no virtual e na vida real.
É cobrado estabilidade, ofertado prazeres imediatos e incentivo ao consumismo, ignorando completamente a complexidade da experiência humana.
Essa necessidade e pressão para ser feliz, começa a dar um efeito contrário nas pessoas.
Será que dá para eu ficar triste, angustiado e com raiva em paz?
“Chegar lá” é ilusório. Existe processos e a vida pede presença nas ações.
Uma pequena frase da minha série favorita (The Bear) diz muito: “every second counts” (cada segundo importa). Apesar de ilustrar a eficiência, também mostra a importância de estar presente, cuidar das pessoas e construir algo duradouro.

As vezes nem você sabe o que realmente precisa ou o que realmente quer. As vezes você vai se deparar com a manada, fazendo coisas iguais a todo mundo, em busca dessa tal felicidade.
Em vez de buscar algo que se dissolve tão rápido, busque o que tenha um significado para você.
Se você não encontra um motivo para fazer o que faz, logo logo você vai parar no meio do caminho e ficar frustrado.
Os dias comuns, a rotina, o cotidiano, nunca foi sobre explosões de felicidade ou de qualquer coisa relacionada. Nós sabemos que tem dias que acordamos diferentes, ou simplesmente porque coisas chatas acontecem.
Precisamos urgentemente desconstruir aquela imagem de felicidade da família margarina. É muito cansativo!
Não quer dizer que ao ser bombardeados com o externo, deixaremos que tudo nos afete. Talvez seja aqui o pulo do gato e o estoicismo entra novamente.
Além dessa busca por algo significativo, acredito que separar coisas do que podemos controlar daquilo que não, deva garantir boa parte daquele bem-estar subjetivo. Ou pelo menos garantir uma vida menos estressante.
Quando entendi isso, percebi que essa busca por algo significativo tinha muita relação com questões de maturidade e de querer uma simples paz. É necessário um pulso forte para dizer não para diversas coisas quando se está construindo algo duradouro.
E isso não tem haver com uma busca desesperada pela felicidade, mas por algo sustentável.
E a felicidade se torna quase um bônus da experiência. Tipo um mimo, sabe? Apenas momentos felizes, mas sem apego.
Vá atrás daquilo que faça sentido para você, por mais estranho que pareça.
Nada externo vai cobrir esse vazio no seu peito.
Tem um versículo que fala sobre “se esvaziar de si mesmo”. Podemos explorar diversas traduções do que isso significa, mas podemos olhar para o lado de renunciar o ego para servir a algo maior que você mesmo.
Antes da felicidade, busque ser inteiro. Acho que só assim, dá para sentir um gostinho da liberdade.
Eu não tenho respostas prontas e muito menos verdades absolutas. A única coisa que posso te oferecer é uma reflexão e uma pequena provocação para a sua vida. O que você anda buscando? E do que anda fugindo?

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