Caçador de tempestades de Dourados já esteve com os melhores meteorologistas do país explica sobre estes fenômenos da natureza; entenda
Carina Yano/Tv Sobrinho –
No dia 07 de novembro de 2025, o município que fica no centro-sul do Paraná, Rio Bonito do Iguaçu, foi atingido por um tornado com ventos de até 330 km/h. 90% da cidade foi destruída, deixando 835 pessoas feridas e sete mortes.

Diante deste último evento extremo, houve uma grande comoção no país, além de medo, indagações e até desinformação em relação a estes fenômenos naturais.
A Tv Sobrinho conseguiu entrar em contato com o fotógrafo e caçador de tempestades de Dourados, Maycon Zanata, para esclarecer sobre estas tempestades no Brasil e fora do país. Ele realiza esse trabalho a seis anos e já esteve com os melhores meteorologistas do Brasil e especialistas em tornados.
O contato com Maycon foi de encontro com a previsão do dia 07. Ele estava se encaminhando para Marechal Rondon (PR) em busca de registrar uma tempestade isolada. Lembrando que em Marechal Rondon havia possibilidade de formação de tornado (último tornado no município foi em 2015).
Maycon acabou registrando sua viagem em sua rede social e viralizou na região deixando algumas pessoas assustadas.
“Eu sinto muito pelo medo que algumas pessoas sentiram ao olhar meus stories. Na correria acabei não explicando muito bem. Mas estas tempestades são extremamente pequenas e isoladas, em 95% das áreas de alerta por exemplo, apenas vai chover tranquilo e calmo ou nem isso. As piores tempestades são tão pequenas e isoladas que acontecem em uma faixa muito pequena. Por isso a gente caça essas tempestades. Todo evento de tornados ou de tempestades funciona desta forma”, citou Maycon.
Ele informou que a tempestade iria se formar próximo a Marechal e não necessariamente no município.
Estas tempestades isoladas são chamadas de supercélulas. Elas são tempestades pequenas, são raras e mais fortes. O tamanho dela é em média de 20km. Elas normalmente andam desgarradas de onde tem muita chuva tranquila.
Tornados no Brasil

De início, ele explica que 95% dos tornados não causam mortes e nem destruição de casas, como ocorreu em Rio Bonito do Iguaçu – estes, são raros de acontecer.
Há registros que os tornados acontecem no Brasil desde 1900. Segundo dados, o Sul do Brasil e parte do Sul do MS é o segundo lugar do mundo mais propício a formação de tornados.
Um levantamento da Universidade Estadual de Ponta Grossa, contabilizou 23 tornados no Sul em 2024. Segundo Maycon, o número de tornados por ano no Brasil, incluindo os tornados de menor intensidade, fica em média de 150 tornados por ano. Esses fenômenos acontecem uma vez a cada 10 anos, aproximadamente. Os mais fortes são raros, em média 1 ou 2.
“O corredor de tornados na América do Sul, ele envolve desde o norte da Argentina, Uruguai e Paraguai”, disse Maycon.
“Grande parte dos tornados acontecem por alguns segundos, talvez por poucos minutos, e como a maior parte do mapa é mato, é área descampada – as cidades são pequenas em relação ao mapa do Brasil inteiro. Aqui no Brasil as tempestades tendem a acontecer no período noturno. Os tornados são pouco documentados, só são realmente documentados quando é um tornado muito raro, muito forte, que dura muito tempo, igual a esse de Rio Bonito. Ele andou por 50 km, por isso que ele atingiu uma cidade.”
Já nos Estados Unidos, tem uma média de 1.000 a 1.500 tornados por ano e muitos deles são fortes.

Maycon recebeu muitos comentários negativos na internet em relação a essa busca por tempestades. Ele explicou que não tem apreço pela destruição que o fenômeno causa e falou da importância desse trabalho.
“Nos Estados Unidos quem fala assim: ‘olha tem um tornado descendo’. E ligam para o telefone da Defesa Civil, quem faz isso são os caras que caçam tornados. Eles emitem o alerta para tentar salvar as pessoas. As vezes não dá, as vezes não é possível porque o tornado é muito rápido”.
Como se formam? Mudanças climáticas e aquecimento global interferem?

Após o episódio de Rio Bonito do Iguaçu, Maycon comentou que surgiu “especialistas” – na fala dele -, ‘passando vergonha’ na internet com inúmeras desinformações a respeito dos fenômenos.
Ele explicou que a formação de tornados nesta região específica do Brasil, é devido a geografia do lugar. Com o encontro da massa de ar quente e úmida vinda da Amazônia com o ar frio e seco vindo da Patagônia, é o cenário perfeito para a formação de tornados.
Já o porquê disso, cria-se teorias em relação as mudanças climáticas e o aquecimento global.
“Estão ligando isso a temas como desmatamento e aquecimento global. O desmatamento e aquecimento global são temas que são extremamente importantes. Isso pode interferir em alguma coisa. Tem estudos que comprovam que isso interfere um pouco na mudança climática. Mas a formação de tornados, ela é complexa, e ela sempre existiu por conta da geografia do nosso lugar”, disse Maycon.
Um alerta vermelho emitido pelo Inmet no último domingo (16) e segunda-feira, incluía o sul e sudoeste do MS e parte do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. O temporal acabou causando mais danos a 30 cidades do RS. Maycon explicou como ocorrem essas previsões.

“Eu não uso esse tipo de alerta porque eles entendem que chuva forte é relacionado a tempestades. Isso já é um grande erro. Qualquer previsão de tempestades, até a previsão que eu sigo que é a da prevots, elas são feitas em grandes áreas. Porque não tem como saber aonde exatamente vai acontecer uma tempestade. Esses alertas vermelhos funcionam da mesma forma.”
Maycon interceptou uma tempestade em Amambai no domingo. Em outras áreas, não teve tempestade, só chuva.
“Toda previsão de tempo severo, ela é demarcada numa área bem extensa e somente 1% dessa área que realmente vai acontecer uma tempestade severa.”
História por trás

Maycon Zanata começou o hobby de caçar tempestades em 2018 após um temporal atingir o sítio do seu avô, em Dourados, quando ele tinha 1 ano de idade.
Na época os moradores relataram que o tornado destruiu várias fazendas. Até a sua adolescência, Maycon tinha pavor de temporais. Após seu avô contar a história, ele começou a se interessar para entender o que era aquela tempestade.
Com o tempo, se tornou fotógrafo e assistia muitos comentários sobre o tema. Aos 25 anos, ele presenciou mais uma tempestade e registrou através das fotos (atualmente está com 34 anos). Através das fotos, conheceu outros fotógrafos de natureza e os melhores meteorologistas do Brasil.
Além da caça em MS, ele já passou por algumas cidades do Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Paraguai, Uruguai e Argentina.
O investimento em equipamentos e viagens nesses últimos anos, custou em torno de 70 mil reais.
Maycon não esperava a repercussão em sua rede social após o episódio de Marechal. Seu instagram alcançou 5 milhões de pessoas e 14 mil novos seguidores em um dia.
Eventos extremos: Brasil está preparado?

Na reportagem com o caçador de tempestade, foi indagado sobre a preparação do país em relação a tempestades severas, se irá precisar de mais investimento nessa área.
“Sempre precisou de investimento na verdade. Como são coisas raríssimas de acontecer, quando acontece geralmente se resolve o problema com algo fácil de se fazer, reconstruindo a cidade e com o tempo todo mundo esquece desse tornado. Ai daqui 10, 15 anos chega outro tornado e acaba matando mais pessoas e o problema vai continuar recorrente, infelizmente o que eu penso é isso. Eu espero que seja resolvido da forma como tem que ser, melhorando os alertas.. mas isso vai demorar bastante, com a tecnologia e investimento que temos, e pelo interesse das autoridades em resolver as coisas. No futuro bem distante, acho que as coisas começam a melhorar, talvez com esse tornado de agora, com a repercussão que está tendo, faça as autoridades, as pessoas a verem isso como algo importante”, relatou Maycon.
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