A liberdade de quem precisa comer, por Euzi Rhamos

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Euzi Rhamos/Tv Sobrinho –

 

Há palavras que chegam à política vestidas de seda.

 

Liberdade. Autonomia. Empreendedorismo. Flexibilidade.

 

São palavras bonitas. Quem seria contra?

 

O problema começa quando a gente abre a embalagem e descobre que, para alguns brasileiros, a tal liberdade pode significar simplesmente trabalhar mais para ganhar menos.

 

O plano de governo de Flávio Bolsonaro para 2027–2030 apresenta-se como uma promessa de modernização do Estado, redução de impostos, empreendedorismo e autonomia. Mas, quando o documento chega ao capítulo do trabalho, a palavra “liberdade” ganha outra tonalidade.

 

A proposta defendida pelo candidato para enfrentar a escala 6×1 permite uma jornada flexível por contrato individual, com remuneração proporcional às horas trabalhadas. Férias, FGTS e 13º também seriam proporcionais. O trabalhador poderia escolher trabalhar menos — e, naturalmente, receber menos.

 

Parece liberdade.

 

Até lembrarmos que existe uma diferença enorme entre escolher trabalhar menos e precisar aceitar trabalhar menos porque a alternativa é ficar desempregado.

 

É muito fácil falar em autonomia quando se está sentado diante de uma mesa. Mais difícil é explicar essa autonomia para a mulher que precisa pagar o aluguel, para o pai que tem três filhos, para o jovem que procura o primeiro emprego ou para o trabalhador de cinquenta anos que perdeu o emprego depois de décadas de contribuição.

 

O plano também propõe contratos com menor custo para jovens de 18 a 24 anos e para desempregados com mais de 50 anos. A intenção declarada é facilitar a contratação. Mas fica uma pergunta incômoda: se o trabalhador pobre precisa aceitar menos para conseguir entrar pela porta, quanto tempo levará até que “menos” vire o novo normal?.

 

E há outra palavra bonita: negociação.

 

O programa defende o “negociado sobre o legislado” e dá maior espaço para acordos individuais entre trabalhador e empregador.

 

Só esqueceram de contar que negociação pressupõe equilíbrio.

 

De um lado, alguém oferece o emprego.

 

Do outro, alguém precisa dele para colocar comida na mesa.

 

Chamar essa relação de “livre negociação” pode ser uma bela maneira de esconder que, muitas vezes, um dos lados tem o poder de dizer “aceite ou procure outro emprego”.

 

O plano também dispara contra os sindicatos, chamados de parte de uma “República Sindical”.

 

É curioso.

 

O trabalhador individual, sozinho diante de uma empresa, seria forte o suficiente para negociar suas condições.

 

Mas o trabalhador organizado coletivamente seria o problema.

 

Talvez seja uma nova matemática da política: quanto menor a voz do trabalhador, maior a liberdade de quem contrata.

 

Depois vem o grande “tesouraço”.

 

Cortar pelo menos dez ministérios, reduzir cargos, despesas administrativas e apertar os gastos públicos.

 

Cortar desperdícios é necessário. Ninguém em sã consciência deveria defender dinheiro público jogado pela janela.

 

Mas existe uma pergunta que deveria acompanhar toda tesoura:

 

vai cortar o quê?

 

Porque pobre não utiliza o Estado como decoração.

 

O pobre precisa do posto de saúde.

 

Da escola pública.

 

Do INSS.

 

Da assistência social.

 

Da universidade pública.

 

Da creche.

 

Do transporte.

 

Da farmácia pública.

 

Da política habitacional.

 

Para quem tem dinheiro, diminuir o Estado pode significar menos burocracia.

 

Para quem não tem, às vezes significa simplesmente menos uma porta onde bater.

 

E o plano oferece uma solução moderna para isso: vouchers.

 

Se não houver vaga na escola pública, o Estado poderá financiar uma vaga em escola privada. Se não houver vaga na creche pública, poderá haver voucher para uma instituição privada credenciada.

 

É a lógica do mercado entrando pela porta da frente dos serviços sociais.

 

Não necessariamente significa abandonar o pobre.

 

Mas significa mudar a pergunta.

 

Em vez de perguntar:

 

“Como fortalecemos a escola pública?”

 

pergunta-se:

 

“Como compramos uma vaga onde houver?”

 

Em vez de perguntar:

 

“Como ampliamos a creche pública?”

 

pergunta-se:

 

“Quanto custa o voucher?”

 

Na saúde, o plano também prevê contratar serviços e exames da rede privada nos horários ociosos.

 

Pode funcionar? Pode.

 

Pode ajudar a diminuir filas? Também pode.

 

Mas o debate que interessa ao cidadão é outro:

 

qual será o tamanho do Estado que queremos construir?

 

Um Estado que mantém e fortalece seus serviços públicos ou um Estado que cada vez mais compra serviços do setor privado?

 

Porque o pobre não escolhe entre SUS e plano de saúde.

 

Ele escolhe entre esperar na fila e ser atendido.

 

Não escolhe entre escola pública e escola particular.

 

Escolhe entre aquilo que existe e aquilo que consegue pagar.

 

E talvez seja aí que a crônica encontre seu ponto mais delicado.

 

O plano fala em proteção social, mas também afirma que o benefício deve ser uma passagem para o trabalho, o crédito e o patrimônio.

 

A ideia de autonomia é bonita.

 

Ninguém quer viver eternamente dependendo de benefício.

 

Mas existe uma diferença entre dar condições para alguém sair da pobreza e simplesmente dizer ao pobre que ele precisa sair dela.

 

O plano tem uma proposta chamada “Ganha-Ganha”, na qual determinadas atitudes — como trabalhar regularmente, concluir cursos e pagar as contas em dia — podem gerar uma espécie de pontuação positiva, convertida em vantagens de crédito. O programa é apresentado como voluntário e não prevê perda de direitos para quem não participar.

 

Mas há algo quase poético — de um jeito triste — nessa ideia de oferecer mais crédito a quem já está tentando sobreviver.

 

O pobre precisa de renda.

 

E nós oferecemos crédito.

 

Precisa de salário.

 

Oferecemos financiamento.

 

Precisa de emprego decente.

 

Oferecemos flexibilidade.

 

Precisa de creche pública.

 

Oferecemos voucher.

 

Precisa de escola pública forte.

 

Oferecemos uma vaga onde houver.

 

Precisa de aposentadoria digna.

 

Oferecemos um aplicativo.

 

É o Brasil moderno: cada problema social ganha uma senha, um aplicativo, um contrato ou uma parcela.

 

E talvez o grande debate das eleições não seja esquerda contra direita.

 

Nem Lula contra Flávio.

 

Talvez seja uma pergunta muito mais simples:

 

que tipo de liberdade queremos oferecer ao trabalhador brasileiro?

 

A liberdade de escolher seu caminho?

 

Ou a liberdade de escolher entre aceitar menos e ficar sem nada?

 

Porque para quem tem patrimônio, liberdade é escolher.

 

Para quem tem apenas o próprio trabalho, liberdade começa por ter direitos.

 

E há uma diferença enorme entre as duas coisas.

 

No discurso político, o pobre aparece como alguém que precisa conquistar autonomia.

 

Na vida real, ele já é autônomo há muito tempo.

 

Autônomo para acordar cedo.

 

Autônomo para pegar ônibus lotado.

 

Autônomo para criar filhos.

 

Autônomo para pagar conta atrasada.

 

Autônomo para sobreviver quando o salário acaba antes do mês.

 

Autônomo até para adoecer.

 

O que talvez esteja faltando ao brasileiro pobre não seja mais uma aula sobre esforço.

 

Talvez esteja faltando um país que não transforme sua necessidade em poder de barganha contra ele mesmo.

 

Porque existe uma forma muito cruel de liberdade:

 

aquela em que ninguém segura sua mão enquanto você cai.

 

E chamá-la de autonomia não muda a altura do tombo.

 

Euzí Rhamos – Foto: Divulgação

Euzi Rhamos – Escritora e poeta mística. Residente em Mundo Novo há 45 anos, sua obra transforma as palavras em sentimentos poéticos desde os 12 anos. Autora de ‘O despertar do véu’, vol. l e ll, bem como “Âmago Ancestral”. A palavra, sentimentos e emoções podem mudar vidas e é através deste poder que a autora nos convida a trilhhar o caminho para dentro.

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