A ideologia da magreza extrema: mais assustador do que parece

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Cantora norte-americana Ariana Grande, é alvo de de comentários e preocupação na internet pela aparência magérrima (artista está afastada das redes sociais) (Imagem: Reprodução)

“A beleza é a forma mais pura de moeda.” (The Beauty: Lindos de Morrer 2026)

*Texto alto em ironias
Obs: algumas informações nesta coluna podem conter gatilhos para algumas pessoas.

Carina Yano/Tv Sobrinho –

Olha, as vezes eu penso que passamos uma grande parte da nossa existência se preocupando com muitas ilusões.

E eu digo isso não só para o tema principal desse texto, mas para diversas esferas da nossa vida.

O que me fez escolher escrever sobre isso, foi quando comecei a olhar umas fotos recentes na internet de atrizes de Hollywood e de uma cantora famosa norte-americana chamada Ariana Grande.

Honestamente eu fiquei um pouco assustada.

Não é uma questão de julgamento e nada disso é novidade.

A obsessão pela magreza sempre existiu, mais especificamente desde 1960.

Modelo britânica Twiggy, na década de 60 (Imagem: Reprodução)

Eu fiquei curiosa para entender o que estava por trás disso, qual seria a origem de todo esse padrão imposto e como éramos tão influenciados.

E percebi que não havia uma única resposta ou um único vilão. Envolve construção social, influencia através de nomes que tinham uma autoridade, relaçoes de poder, controle e economia.

Retornando para as atrizes de Hollywood, fica evidente que há uma diferença destoante entre uma pessoa magra normal e uma magreza onde a pessoa parece um cadáver.

Aí vem o discurso: mas a pessoa faz o que ela quiser com o corpo dela.

Sim, concordo.

Só que não é de hoje essa exposição de padrões inalcançáveis. Existe uma responsabilidade por parte de pessoas que são influências.

E mais que isso, como está a saúde dessas mulheres? Olha, se está tudo bem, eu retiro tudo o que eu disse. Cadê os familiares, os amigos?

Só que os dados não mentem: Segundo a National Eating Disorders Association, cerca de 31% das pessoas com anorexia nervosa e 23% com bulimia nervosa já tentaram suicídio ao longo da vida.

Não estou dizendo que estas famosas tem algum tipo de transtorno alimentar, porém isso já existiu, principalmente entre modelos. E muito!

Modelo brasileira Ana Carolina Reston, falecida em 2006, vítima de anorexia

Quando você faz uma pesquisa sobre esse retorno da magreza extrema, inúmeras notícias sobre essas atrizes já aparecem. Todo esse bafafa me fez lembrar dos anos 2000 na qual a magreza também era uma tendência.

E o mais estranho disso tudo é que vários filmes dos anos 2000 tratavam as mulheres mais “cheinhas” como descartáveis. O que importava era ser magra.

Custe o que custar, inclusive sua própria saúde.

Além disso, nessa época havia o Tumblr. Se você é um millennial e até da geração Z, vai lembrar dessa plataforma.

Nesta plataforma era possível compartilhar imagens e gifs, que inclusive, havia um submundo onde imagens desconfortáveis apareciam, como: automutilação e meninas muito, mas muito magras.

Tumblr eliminou o histórico de imagens como essa. Esta foi uma das únicas encontradas

Inclusive, atualmente o Tumblr restringiu o histórico destes conteúdos devido a presença destas comunidades.

Confesso que eu fui muito influenciada por esse modismo.

Faltava pouco para eu colocar meu pé dentro da anorexia.

Aos 16 anos eu comecei com a pira de me achar muito gorda, e a partir disso e de várias influências, comecei a comer muito pouco. Comia que nem passarinho e cheguei a pesar 46 quilos.

Falando disso agora, chega a ser bem estranho. A gente entra num universo paralelo na qual só aquilo importa.

Como se a magreza excessiva fosse resolver todos os nossos problemas e que de alguma forma, estávamos no “controle”.

E hoje com 30 anos e com muito mais maturidade, eu entendo o que estava rolando ali.

Tinha um fundo emocional mal resolvido e essa foi uma das formas de eu me sentir confortável na minha própria pele. Curiosamente eu gostava de sentir aquele vazio literal dentro de mim.

Chuto dizer que era um espaço na qual as minhas emoções pudessem se manifestar e se reorganizarem de alguma forma.

É… a “suposta beleza” pode te matar.

Eu fui sortuda porque percebi rápido que tinha algo de errado e minha mãe também começou a se preocupar com aquele cenário.

Só que mesmo não ter progredido, levou muito tempo para eu aprender a lhe dar com essa distorção. Uma hora ou outra, eu estava lá de frente para o espelho me achando gorda. E honestamente, eu nunca fui gorda.

Nós precisamos entender de uma vez por todas que essa busca incessante pela magreza e perfeição, é meramente uma ideologia. Uma moda. Um padrão.

É claro que nos preocupamos com a estética e queremos nos sentir bonitos e bonitas. Não vamos ser hipócritas.

Só que o problema sempre estará no extremo. Confundir se melhorar com camuflar coisas que não compreendemos. É querer tampar o buraco com maquiagem, cirurgia plástica e ácido.

Filme A Substância (2024)

Nada externo pode resolver aquilo que está uma bagunça no lado de dentro.

E sabe o que é mais irônico?

O padrão de beleza do corpo feminino na pré história era ter curvas e quadris e seios avantajados. Em 1950, Marilyn Monroe era símbolo de beleza com um corpo cheio de curvas.

Foto: Reprodução

E sabe de outra coisa irritante? Vamos parar de falar do corpo feminino, por favor.

Eu sei que isso são décadas e décadas de discussão.

Diferente dos discursos que já conhecemos, o problema do mundo machista não vai ser resolvido falando mal dos homens machistas, porque no fundo, são eles que estão doentes.

Se estes homens são tão seguros de si, por que querer rebaixar a mulher como objeto e tratá-la como produto?

A verdadeira liberdade consiste em reconhecer que somos seres humanos imperfeitos e que cada um tem a sua singularidade. Sem colonizar ninguém e sem ditar como esse ser deve ser.

E essa singularidade deveria ser o símbolo de beleza. Porque a beleza é um reino que que se constrói a partir do seu próprio olhar, experiências e do que de fato tem valor eterno.

É preciso ter muito raciocínio crítico para não cair nos modismos.

Você sabia que a corrida está na moda? Inclusive, eu já ouvi falar que tem curso para você aprender a correr. MEU SENHOR.

Gente, correr é ancestral. Isso está no nosso DNA.

E isso não é a minha opinião, é ciência.

“Compre tal tenis, acorde 05 da manhã, participe de todas as provas, tenha aquele relógio, alcance tal pace…”

Ah, me poupe!

E eu digo isso com propriedade, porque eu corro desde os 14 anos e nunca calculei nada. Só pegava meu tênis normalzinho e corria com o fone de ouvido, bem feliz.

Olhe por um momento para as ideias que você compra: você realmente quer aquilo ou é só para fazer parte do hype ou da modinha?

Você realmente quer fazer fazer algo ou só está indo porque todo mundo vai e você não quer ficar só? Reflita sobre os seus gostos e tenta ver se eles realmente são seus.

Modismo não se sustenta a longo prazo. É igual aquelas dietas loucas.

Somos reféns do padrão, e com isso, vem a morte da autenticidade.

Como diz em uma música da minha cantora preferida, Lana Del Rey:
“Will you still love me (Voce ainda me amará)
When I’m no longer young and beautiful?” (quando eu não for mais jovem e bela?)

Canetas endeusadas, imediatismo e a Era do Bem Estar

Imagem: Ilustrativa/Pinterest

Eu não podia me esquecer das canetas emagrecedoras.

Antes de qualquer coisa e qualquer pré julgamento, eu não sou contra nada. Porque a partir do momento que proibimos algo, existe margem para cenários piores e as pessoas não vão deixar de usar só porque é proibido.

Inclusive, não é atoa que a Anvisa condena a compra dessas canetas no Paraguai porque não há garantia de qualidade ou segurança.

Só para contextualizar, estas canetas surgiram na década de 1990 como um tratamento laboratorial para o diabetes tipo 2.

Felizmente isso se tornou uma revolução para a questão da obesidade, porém o cenário é desgostoso.

Por conta de todo o imediatismo de querer emagrecer rápido, a compra destas canetas atingiram números expressivos causando escassez do produto.

Os estudos mostram que a maioria dos usuários são aqueles sem indicação terapêutica, ou seja, não são obesos.

Além da escassez de canetas para pessoas com obesidade, a incidência desta doença geralmente é maior entre pessoas de baixa renda. (G1)

O uso indiscriminado não se torna um problema apenas para quem usa, mas se torna uma perda para aquele que realmente precisa.

Especialistas explicam que precisa ser utilizado com acompanhamento médico e na dose adequada. Afinal, emagrecer de forma acelerada compromete o sistema imunológico e metabólico.

E como alguns dizem, não será um tratamento milagroso. O básico ainda deve ser feito, como ter um alimentação saudável, se exercitar e dormir bem.

O problema não são as canetas emagrecedoras. Até porque é uma descoberta incrível para pessoas com uma doença que é crônica.

A questão é: até onde estamos indo a favor de ser magro? Da beleza? Do padrão? Da rapidez?

As vezes eu tenho a impressão que existe uma escassez de coisas genuínas.

O que você faz é genuíno ou é só para se encaixar? Para agradar?

Se você acha que existem atalhos nessa vida, me fala. Pode até ter, mas o resultado depois vai ser bem caro.

Gente, a gravidade existe. Tudo tende a nos empurrar para baixo.

E o nosso papel é levantar e se movimentar. E isso é sobre saúde.

Sabe o que é o mais paradoxal?

Vivemos na era do wellness (bem-estar) e ao mesmo tempo uma pressão psicológica e auto perfomance em tudo, gerando ansiedade, depressão, transtornos alimentares e burnout. No wellness prega a busca por equilíbrio… que delírio!

A famosa rotina ‘instagramável’ (Imagem: Pinterest)

E se você acha que parou por aqui, o buraco é mais fundo.

Existem comunidades online que romantizam ficarem doentes, como pegar uma virose ou dengue, porque consequentemente emagrecem e enxergam isso como uma conquista a ser celebrada.

Afinal, o importante é ser magra e ‘a beleza dói’.

*Indicação de filme sobre transtornos alimentares: O mínimo para viver (2017)

 

*Yano Terapias apoia esta colunista.

Carina Yano tem 30 anos e é formada em fotografia com três fotos publicadas na Vogue Itália. Trabalhou durante 7 anos como jornalista. No momento trabalha como massoterapeuta, colunista da Tv Sobrinho e Youtuber. Seu amor pela escrita é um romance antigo. Desde a sua adolescência escrevia, mas só agora teve a oportunidade de expor em público suas reflexões.

*O material pode ser reproduzido, desde que seja dado os créditos, com o nome do autor e da empresa, no início da matéria, como no exemplo deste conteúdo. Caso esta prática não seja respeitada – com o nome ao final do texto somente – o conteúdo acima está desautorizado para reprodução, podendo sofrer consequências judiciais. A prática existe para preservar o investimento feito pela Tv Sobrinho no seu Jornalismo.

 

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