O motivo por trás da presença massiva das organizadas do Corinthians na Copa do Mundo

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Foto: Divulgação

Bastidores revelam que um acordo envolvendo ingressos populares restringiu a exposição de organizadas de clubes, mas uma estratégia independente garantiu o protagonismo das torcidas corintianas nas arquibancadas

Kaique Dalapola/Peleja –

À exceção do jogo entre Brasil e Escócia no Hard Rock Stadium, em Miami, no dia 24 de junho, quando uma faixa da Raça Rubro-Negra, do Flamengo, foi destaque na transmissão oficial da Copa do Mundo, tem sido muito mais comum ver materiais de torcidas do Corinthians nos jogos da Seleção Brasileira.

Além das faixas e materiais das torcidas oficiais da Seleção, como o Movimento Verde Amarelo (MVA) e o Núcleo BR, que ocupam espaços de destaque nas arquibancadas, o cenário predominante nas transmissões internacionais da Fifa tem sido marcado pela presença massiva de materiais de torcidas organizadas do clube alvinegro.

Gaviões da Fiel, Camisa 12, Pavilhão Nove, Estopim da Fiel, Fiel Macabra e até a Fiel Jardim Brasil importante bonde corintiano da zona norte de São Paulo foram vistas, em algum momento dos jogos, nas telas do mundo inteiro durante as exibições da Seleção no Mundial da América do Norte.

Fiel Jd. Brasil, em New Jersey, no jogo de estreia da Seleção
Fiel Jd. Brasil, em New Jersey, no jogo de estreia da Seleção (Foto: Divulgação/Os Gaviões do JB)

Essa hegemonia da Fiel nos estádios da Copa acendeu um debate nas redes sociais e entre os que acompanham de perto a cultura das arquibancadas. Como já se sabia que várias lideranças de diferentes torcidas do Brasil estariam presentes nos jogos em solo estadunidense, havia uma expectativa para entender se todos seguiriam à risca os acordos firmados com o MVA, que previam o apoio exclusivo à Seleção e a proibição completa de materiais e fardamentos de torcidas organizadas de clubes dentro do setor unificado.

Tradição das arquibancadas

Para compreender o peso de pendurar uma bandeira ou estender uma faixa em uma Copa do Mundo, é preciso entender que essa prática faz parte da própria identidade do torcer brasileiro.

Não se trata de uma novidade mercantilizada, mas de uma tradição que remonta à década de 1980. Foi especialmente no Mundial do México, em 1986, que surgiram os primeiros relatos e registros de faixas de torcidas organizadas brasileiras estendidas nas arquibancadas dos estádios sob intervenção da Fifa.

Desde então, cruzar o oceano para exibir o patrimônio da organizada nos jogos da Seleção Brasileira tornou-se um rito de passagem e uma demonstração de força política entre as agremiações.

No último título mundial do Brasil, por exemplo, a presença das organizadas foi marcante na caminhada histórica. “No Penta, em 2002, tínhamos cerca de 70 corintianos na Coreia do Sul e no Japão acompanhando a Seleção de perto, garantindo o barulho na torcida”, relembra uma liderança da Camisa 12 ao PELEJA.

Para manter essa tradição de fôlego viva e sem amarras, as torcidas do Corinthians optaram por tomar um caminho independente no ciclo atual. Os representantes das organizadas corintianas, embora estejam apoiando a torcida brasileira liderada pelo Movimento Verde e Amarelo, decidiram ficar à margem do acordo firmado entre o MVA e as principais lideranças de torcidas organizadas do Brasil.

Contrato dos 60 dólares

Estopim da Fiel, em Houston, na classificação para as oitavas da Copa
Estopim da Fiel, em Houston, na classificação para as oitavas da Copa (Foto: Divulgação/Estopim da Fiel)

O PELEJA apurou os bastidores do contrato confidencial firmado entre o MVA e os representantes das organizadas de clubes para a Copa do Mundo.

O documento previa uma parceria inédita: o movimento de primeiro escalão da Seleção garantiu junto às entidades organizadoras o direito a uma carga de ingressos pelo preço popular de 60 dólares para repassar aos integrantes das organizadas de clube. Em troca do benefício, contudo, as lideranças assinaram uma cláusula de restrição de identidade visual.

Pelo contrato firmado, os representantes das torcidas de clube que acessassem o setor popular tendo conseguido o ingresso com o MVA não poderiam, de jeito nenhum, esticar materiais das organizadas. Além disso, foi proibida a entrada no setor vestindo as camisas das organizadas. A liberação de fardamento ficou restrita a bonés, bermudas e calças das agremiações.

De um ponto de vista institucional, o acordo foi considerado um sucesso absoluto pelas entidades. O MVA entende que conseguiu colocar o apoio unificado à Seleção Brasileira acima das rivalidades locais, criando uma ilha homogênea no setor focado nos cantos de arquibancadas.

Rostos da arquibancada

Apesar de as camisas verde e amarelas padronizarem o setor, quem vive o dia a dia das arquibancadas de clube consegue identificar com facilidade as lideranças que estão ditando o ritmo nos Estados Unidos.

Entre os rostos conhecidos nas torcidas brasileiras que circulam pelas arenas da Copa do Mundo de 2026, destacam-se figuras de peso que aceitaram o desafio de apoiar o Brasil em solo estrangeiro, deixando as antigas rivalidades nacionais em segundo plano.

Uma das principais figuras presentes é o Deco, importante liderança da Torcida Jovem do Santos. Segundo ele, o ineditismo causa um impacto positivo do projeto atual.

— O lance das torcidas organizadas entenderem que aqui é Copa do Mundo, aqui é Seleção Brasileira, é fundamental e essencial. 2026 são outros tempos. Não é uma união, mas é um entendimento de que não é o momento de conflito, nem de nenhum tipo de discussão. É um momento mesmo de se abraçar e abraçar a causa — relatou o santista.

Fiel Macabra e Camisa 12, em Miami, durante a fase de grupos da Copa
Fiel Macabra e Camisa 12, em Miami, durante a fase de grupos da Copa (Foto: Divulgação/Fiel Macabra)

Outro nome de destaque na linha de frente da torcida brasileira é Givanildo, presidente da Fiel Macabra“O relacionamento entre todas aqui está sendo da hora, todo mundo se respeitando, carregando instrumento, bandeira… Todo mundo em prol da Seleção”, afirmou.

Essa visão de respeito mútuo nos bastidores também foi endossada por Denis, diretor da Camisa 12, outra tradicional agremiação corinthiana. “Todo mundo está deixando o clubismo de lado em apoio ao Brasil”, disse.

Brecha no acordo

A explicação para a avalanche de materiais corintianos na transmissão reside em uma brecha do acordo com o MVA. O contrato só foi firmado com os integrantes que adquirissem os ingressos de 60 dólares por meio do movimento. Quem estivesse fora dessa cota oficial não estava submetido às restrições de fardamento e exposição de materiais.

Como a imensa maioria das torcidas brasileiras viajou para os Estados Unidos com contingentes pequenos, o MVA acabou destinando de um a cinco ingressos para cada torcida que aceitou fazer parte do projeto. Na prática, isso significou que 100% dos representantes daquelas organizadas estavam sob as amarras contratuais do bloco unificado, impossibilitando exibir suas cores sob pena de quebra de contrato.

Por outro lado, as torcidas do Corinthians desembarcaram nos Estados Unidos com contingentes significativamente maiores de componentes. Sabendo das restrições do pacto, os corintianos buscaram ingressos por meios próprios — recorrendo a canais de revenda da Fifa, plataformas de câmbio e contatos com a comunidade brasileira local —, mantendo-se totalmente livres dos acordos do MVA. A mesma lógica funcionou pros integrantes da Raça Rubro-Negra que conseguiram estender sua faixa também.

Dentro dos estádios, vigora a velha máxima da arquibancada: depois da principal torcida, quem chega primeiro (ou for mais forte) tem o direito ao espaço. O resultado impresso nas telas de todo o planeta não reflete, portanto, uma quebra de acordo generalizada por parte das organizadas, mas sim a execução precisa de uma tática de independência.

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