Enquanto muitos brasileiros torcem contra a Argentina por episódios de racismo, especialistas lembram que a história é mais complexa e que o preconceito é um problema global
Raysa Almeida/Tv Sobrinho –
Jogo desta quarta-feira (15) pela Copa do Mundo de 2026 mobiliza torcedores dentro e fora de campo; especialistas alertam para o risco de transformar críticas legítimas em generalizações sobre países inteiros.
A semifinal entre Argentina e Inglaterra pela Copa do Mundo FIFA acontece nesta quarta-feira (15) cercada de expectativa esportiva, rivalidade histórica e discussões que ultrapassam as quatro linhas. Nas redes sociais, parte dos torcedores brasileiros tem manifestado torcida contra a Argentina, muitas vezes associando o país a episódios de racismo registrados no futebol sul-americano.
O debate, no entanto, exige contexto. Casos de discriminação racial envolvendo clubes, torcedores e até jogadores argentinos são amplamente repudiados e merecem condenação firme. Mas atribuir o rótulo de “país racista” a toda a população argentina simplifica uma discussão complexa e ignora que o racismo é um problema estrutural presente em diversas sociedades.
Racismo e apagamento histórico
Um dos pontos que alimentam a percepção internacional sobre a Argentina é a histórica invisibilização da população afrodescendente no país. Historiadores apontam que, no fim do século XVIII, pessoas negras chegaram a representar parcela significativa da população em algumas regiões argentinas.
Ao longo do século XIX, políticas de incentivo à imigração europeia, mudanças nos registros civis e a ausência de categorias raciais específicas nos censos contribuíram para a construção do mito de uma Argentina “branca”. Pesquisadores como George Reid Andrews afirmam que muitos afro-argentinos não desapareceram, mas foram reclassificados socialmente.
A trajetória de María Remedios del Valle simboliza esse apagamento. Considerada “Mãe da Pátria” por sua participação nas guerras de independência, ela foi esquecida por décadas pela narrativa oficial argentina. Apenas em 2013 sua memória ganhou reconhecimento nacional, e desde 2024 seu rosto aparece na nota de 10 mil pesos.

Casos recentes e crítica necessária
O tema voltou ao centro das atenções em 2024, após cantos racistas envolvendo jogadores argentinos durante comemorações da Copa América. O episódio gerou repercussão internacional e reacendeu críticas à tolerância com manifestações discriminatórias no futebol.

Reconhecer esses casos é importante para cobrar responsabilização de atletas, torcedores, clubes e autoridades esportivas. Mas a crítica ao racismo deve ser dirigida aos comportamentos e estruturas que o reproduzem, não a uma nacionalidade inteira.
Um problema global, não exclusivo
O racismo não é exclusividade da Argentina. Brasil, Espanha, Inglaterra, França e outros países também convivem com episódios de discriminação racial, xenofobia e intolerância. No Brasil, por exemplo, dados sobre violência contra pessoas negras mostram a gravidade do problema no próprio contexto nacional.
Por isso, especialistas defendem que a luta antirracista precisa começar pelo reconhecimento das desigualdades dentro de cada sociedade. Torcer contra uma seleção por rivalidade esportiva é legítimo; transformar essa rivalidade em estigma coletivo não contribui para o combate ao racismo.
Semifinal de alto risco
Além do debate social, a partida foi classificada pelas autoridades como de alto risco. Representantes da FIFA, do FBI, das polícias de Atlanta e Miami e das delegações de segurança das duas seleções se reuniram para definir um plano especial de operação.
Segundo a ministra da Segurança Nacional da Argentina, Alejandra Monteoliva, haverá reforço de 1.600 policiais, com acessos separados para as torcidas no Mercedes-Benz Stadium. Também foi proibida a entrada de cartazes, bandeiras e mensagens de conteúdo político ou racial.
A rivalidade entre Argentina e Inglaterra é alimentada tanto pela história do futebol quanto pela memória da Guerra das Malvinas, conflito de 1982 que ainda tem forte peso simbólico para os argentinos.
Torcida, crítica e responsabilidade
A semifinal desta quarta-feira promete ser um dos jogos mais tensos e comentados da Copa do Mundo de 2026. Mas, diante do debate sobre racismo, o desafio é separar a paixão esportiva da generalização.
Condenar atitudes racistas é necessário. Cobrar punição e mudança cultural também. O que não ajuda é transformar milhões de pessoas em alvo de um rótulo coletivo. Em um torneio global, o futebol pode ser palco de rivalidade mas também de reflexão sobre como sociedades inteiras enfrentam o racismo dentro e fora dos estádios.










