Coisas que aprendi ao estar cara a cara com a morte

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Foto: Ilustrativa/Pinterest

Carina Yano/Tv Sobrinho –

Todo mundo sabe que vai morrer um dia, mas ninguém está preparado para tal ocasião.

Aqui no Ocidente tratamos a morte como um assunto a ser evitado, um tabu, gerando uma conotação apenas negativa.

Em outros lugares, no Oriente por exemplo, tem países que a tratam com naturalidade enxergando apenas como uma passagem, um ciclo natural que se encerra. Em países nórdicos encaram até de uma forma pragmática e sem muitos dramas.

Diante dessas visões percebo que existe um respeito e humildade diante da morte. A energia é outra.

Existem pessoas que até realizam um funeral em vida, para celebrar a existência daquele indivíduo e dizer tudo o que sente por ele enquanto está vivo.

A real é que existem inúmeras visões, crenças e formas de lhe dar com a morte.

Particularmente falando, esse tema é muito forte na minha vida e sempre se fez presente em diversos formatos.

A primeira foi quando eu era criança, por volta dos 10 a 12 anos.

Eu estava com um problema estomacal. Sentia dor e minha mãe resolveu me dar o famoso Buscopan.

Não sei se eu era alérgica a esse medicamento, só sei que começou a me dar taquicardia. Coração acelerando e eu mal conseguindo respirar.

No desespero, minha mãe me levou até ao hospital. Fui levada numa cadeira de rodas até o quarto e me deram alguns medicamentos e soro.  E finalmente passou aquela sensação.

Como já faz muito tempo, a única coisa que lembro é que o médico me disse que eu havia sofrido risco de vida naqueles instantes. Ou melhor, risco de morte.

Aquilo nunca mais saiu da minha cabeça.

Nunca tinha ficado internada e aquela foi a primeira e espero ser a última. Nunca gostei de hospitais (quem gosta?).

Só lembro que depois que sai de lá no dia seguinte, a vida parecia até mais brilhante. Foi difícil pra mim, como criança, escutar que eu poderia ter morrido. Foi simplesmente impactante.

Foto: Ilustrativa/Pinterest

Felizmente não deixei aquilo me deprimir. Utilizei a experiência para perceber o quanto a vida era bela. O quanto era incrível estar viva.

Depois disso minha visão da vida mudou totalmente. Mesmo tão nova, eu já percebia e valorizava os detalhes de cada dia.

Eu poderia finalizar o texto aqui com esse final aconchegante, mas a vida insiste em nos desafiar.

Aos 15 anos descobri que tinha asma e as crises eram muito fortes. Ao ponto de não conseguir respirar sozinha. Precisava usar inalador todos os dias, além das bombinhas e outro medicamento para o nariz.

Não corri risco de vida propriamente, mas todos os dias eu sentia que ia morrer por simplesmente não conseguir respirar.

Dessa vez eu fiquei muito desanimada. Era exaustivo, mas eu não reclamava. Só ficava triste.

Graças aos meus pais, pude fazer um tratamento. Naquele mesmo ano eu já nem sentia mais nada. Na época eu já corria e só continuei, até hoje aos 29 anos. Felizmente não sei mais o que é ter asma.

Vamos continuar a passear pelo vale do quase morte?

Pois bem. Eu tive a brilhante ideia de consagrar a ayahuasca. Para quem não conhece, é uma bebida enteógena ancestral da Amazônia rica em DMT, ou seja, um psicodélico.

Geralmente ela é utilizada em contextos de rituais religiosos com inúmeras intenções terapêuticas de cura e conexão. E na época, eu fui em um retiro que tinha esse objetivo ritualístico.

Uma observação: essa bebida não é para todo mundo. Inclusive existem contraindicações e pode ser muito perigosa.

Como vocês podem ver, ela não era pra mim também rs.

Honestamente eu fui por curiosidade e por querer melhorar como ser humano. Enxergar coisas que eu precisava ver e me “curar” daquilo.

Algumas coisas foram interessantes, mas a maioria foi um caos. Eu realmente achei que ia morrer. Na segunda consagração, a pressão parece que foi lá no pé e eu ia desmaiar. Antes de morrer, não tem muito o que fazer. O que passa na sua cabeça é: puta que pariu, é sério que eu vou morrer agora?

Agora conto num tom cômico, mas na hora foi nada engraçado.

De repente era dessa experiência que eu estava precisando. Talvez algo ‘morreu’ aquele dia, de forma simbólica.

Uma coisa interessante que a gente percebe, é o nosso desespero em pedir ajuda para não morrer. Nesses momentos todas as frescuras do ego, caem por terra.

Outro momento relacionado com a morte, foi quando eu tive a minha primeira crise existencial aos 22 nos. Essa foi barra pesada porque cheguei ao ponto de ter pensamentos bem obscuros.

Do tipo de imaginar como seria eu acabar com tudo (já entendeu né?). Amigos, familiares que estão lendo, calma. Tá tudo bem agora rs.

Sei o quanto esse assunto é sério, sinto que passei pelo vale mais sombrio de mim mesma. E faz parte da vida. É necessário passar por esse lugar arenoso.

Se você não chegou no fundo do poço, uma hora vai. Só que você tem que subir de novo, tá? E peça ajuda!

Para finalizar essa jornada interminável de morte e renascimento, nos últimos tempos a ansiedade que eu carregava dentro de mim transbordou em forma de crises absurdas.

Tontura, tremedeira, frio, mão suando, desrealização, falta de ar, coração acelerado e a canseira após crise, como se um caminhão tivesse passado em cima do meu corpo.

Claro que neste caso, eu também não sofri risco de morte, mas quem já passou por isso sabe que a sensação é a mesma.

Dentro da sua cabeça tem um alerta tocando dizendo: você vai morrer.

Foram muitas experiências. Avalanches que achei que não ia aguentar, mas eu aguentei e estou aqui agora para contar tudo isso.

Eu aprendi a explorar mais ainda a minha sensibilidade diante da vida e aproveitar cada segundo da existência.

Não quer dizer que eu sou perfeita e agora sei viver.

Mas eu tenho uma grande consciência da efemeridade das coisas. Isso as vezes pode me deixar melancólica, mas ao mesmo tempo pode me deixar entusiasmada em querer apenas viver o presente como ele se apresenta.

A gente aprende a não ficar reclamando de qualquer coisa.

Até as próximas crises existenciais se transformaram. Elas levantaram questões diferentes. Não fico mais desesperada por respostas. Muita coisa eu não sei mesmo.

Nós nos preocupamos demais e na maioria das vezes é desnecessário. Sabe por que?

Porque todos nós vamos morrer.

Então aproveita um pouco, porque a gente não sabe quando vamos partir.

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