Sala Lilás em Mundo Novo será comandada pela escrivã de polícia, Marcieli Raimondi (Foto: Carina Yano/Tv Sobrinho)
Sala Lilás, 51ª no estado, será inaugurada em Mundo Novo nesta sexta-feira (22); números da violência no município aumentam a cada ano
Carina Yano/Tv Sobrinho –
Os casos de violência doméstica e feminicídio são frequentes em todos os meses do ano, inclusive no Agosto Lilás – campanha destinada para a conscientização sobre todas as formas de violência e incentivar a denúncia de canais oficiais, como o disque 180.
A cada nove dias, uma mulher é assassinada em Mato Grosso do Sul e a cada 25 minutos, uma mulher denuncia violência doméstica no estado. Até o mês de julho, o ligue 180 (nacional) recebeu 86 mil denúncias de violência contra a mulher.
Em 2024, o Brasil registrou mais de 87 mil estupros e 1.492 feminicídios. O país está em 5º no ranking de homicídios de mulheres.
“Segundo o Sejusp do nosso estado, Mundo Novo, de 2023 a maio de 2025, teve 415 registros de violência doméstica. Um número muito alto para uma cidade tão pequena. Em 2023, o Creas recebeu 54 boletins de ocorrência de mulheres vítimas de violência e apenas 18 aceitaram atendimento. Em 2024, foram 64 boletins de ocorrência e apenas 18 novamente aceitaram ser atendidas, 16 recusaram e 30 mulheres nós não conseguimos localizar – mesmo fazendo três tentativas de visita na residência. Em 2025, até maio, nós recebemos 54 boletins de ocorrência, onde apenas oito aceitaram ser atendidas e acompanhadas, cinco recusaram, 17 mudaram de endereço e 24 ainda estão para visitas”, citou advogada do Creas de Mundo Novo, Beatriz Arteman.
Imagem: Rede Social
Outro dado alarmante que Beatriz outro na audiência pública, foi que apenas 31% das violências ocorridas no Brasil, chegam nas autoridades.
A Tv Sobrinho entrou em contato com o delegado da Polícia Civil de Mundo Novo, Alex Junior, e ele informou que de janeiro até este mês, já foram mais de 100 ocorrências de violência doméstica.
“Nós precisamos levar para as escolas esse tema da Maria da Penha. Precisamos falar com os jovens, com os adolescentes, com os meninos, com as meninas, porque a violência acontece muitas vezes na casa, na família, que é uma questão muito complexa. A mulher deve se sentir segura dentro da sua casa, e muitas vezes ela não está sendo respeitada. Tanto pelos filhos, que as vezes são os homens da casa, ele precisa observar que a mulher precisa de respeito”, disse a coordenadora da coordenadoria da Mulher em Mundo Novo, Enizete Zorzan.
Vítima por anos
Fran concedeu sua imagem e todas as informações a Tv Sobrinho (Foto: Jandaia Caetano/Tv Sobrinho)
“Eu vivi 26 anos na violência doméstica. Minha palavra não valia praticamente nada mais. Eu não conseguia enxergar ele como possessivo, eu achava que ele me amava muito. A gente acredita que aquilo é amor, o fato dele estar te protegendo, sentindo ciúmes e onde infelizmente só se agravava. A maioria das vezes era agressão física. Então toda vez que eu me olhava e via um sintoma no meu rosto, após a discussão e agressão, eu me sentia culpada. O agressor sempre fala isso para a gente: “a culpa é sua, se você tivesse ficado quieta, você não teria apanhado”. Até hoje eu tenho trauma de armas. Ele sempre andou armado e eu me sentia ainda mais insegura. Eu sabia do que ele era capaz, se ele me batia, ele ia me dar um tiro”, relatou Fran Lisboa, vítima de violência doméstica.
Francisca Lisboa é agente de Saúde em Mundo Novo há sete anos e reside na cidade há mais de 40 anos. Ela também informou que sofria inúmeras chantagens emocionais e ameaças do ex-marido, caso ela fizesse alguma denúncia. Fazia ameaças de morte contra a sua própria família e dizia que ia tomar o filho.
Foram 23 anos juntos, porém mesmo após a separação, foram mais três anos de violência psicológica. A última agressão foi presenciada pelos dois filhos. Foi através dos filhos que Fran conseguiu sair desse ciclo de violência.
Ela citou que na época, anos 80 e 90, ainda não tinha essa proteção e apoio às mulheres vítimas de violência. Se uma mulher contasse uma história similar na delegacia, poderia até virar chacota, segundo Fran.
“A minha liberdade da violência doméstica foi quando eu percebi que meus filhos cresceram, que eu não estava mais sozinha e que a minha missão de mãe foi cumprida”, explicou.
Como agente de Saúde, ela citou que diariamente em seu trabalho de visitas nas casas, consegue perceber quando existe este tipo violência no lar e diz que já conseguiu ajudar várias mulheres e casais.
Impactos
A psicóloga Lara Neves que atua em Guaíra, explicou como todo o cenário de violência impacta a vida na vítima.
“Isso vai calando a voz dela. Então ela vai perdendo o seu direito de existir como um sujeito desejante. O que seria esse sujeito desejante? Uma pessoa que faz escolhas, planos para o futuro, escolhe a roupa que quer sair, um hobby que gosta. Então é sobre o que a gente deseja, que a gente faz o nosso dia. A violência vai afetando diretamente essa mulher na forma como ela se enxerga e na forma que ela vai se relacionar com o mundo”, disse Lara.
Ela diz que vê na clínica muitos casos em que a mulher tem dificuldade de se posicionar, saber o que quer.
“Isso já é uma questão pertinente na humanidade. Agora você imagina uma mulher vítima de violência dentro da própria casa?”
Inauguração da Sala Lilás em Mundo Novo
Foto: Carina Yano/Tv Sobrinho
A inauguração da Sala Lilás em Mundo Novo, acontece nesta sexta-feira (22), a partir das 10h, na Polícia Civil.
Em Mato Grosso do Sul, será a 51ª sala inaugurada. O espaço é reservado para um atendimento mais humanizado e tranquilo para a vítima. Além de conter um canto para crianças (filhos que podem ir junto da mãe no atendimento).
Será oferecido um suporte especializado para o registro de boletins de ocorrência, solicitação de medida protetiva e requisição de exames periciais – tudo com base nos princípios da Lei Maria da Penha (11.340/06) e do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (Lei 8.069/90).
A informação até o momento desta reportagem, é que sala já chegou em 48 municípios do MS. Dentre eles, incluindo a região, além de Mundo Novo, está Eldorado, Iguatemi, Itaquiraí, Amambai, Paranhos, Tacuru, Sete Quedas e Naviraí.
A sala lilás é um projeto pioneiro no Brasil. A primeira foi inaugurada em novembro de 2017.
Acolhimento dos agressores
Em Guaíra, a procuradora Karina Bach da Procuradoria da Mulher, juntamente com outros setores da Assistência Social, estiveram a frente de um projeto, através do Ministério Público, onde reúne todas as terças no fórum, homens com medida protetiva.
Nos encontros são debatidos diversos temas para ajudar remanejar esses indivíduos.
Um dos relatos mais chocantes apontados pela procuradora foi que um homem estava com a intenção de assassinar sua própria esposa e depois tirar a própria vida. Após das rodas de conversa, ele conseguiu mudar a mentalidade e escolheu não cometer o crime.
Entrevista completa com Fran Lisboa:
Entrevista completa com a coordenadora da Coordenadoria da Mulher de Mundo Novo:
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